Eu vivi treze anos noutras cidades e, ao retornar para viver em Iguape em ago/98 – onde estou desde então –, vieram-me ternas e adoráveis lembranças. Uma delas foi rememorar, ao olhar o prédio do Hospital Feliz Lembrança, o nascimento do meu filho em 92. A alegria sentida na ocasião justificava, para mim, a denominação do local. De fato, felizes são as lembranças, até mesmo das traquinagens na infância, as quais levaram-me até lá para curativos emergenciais e, diga-se de passagem, quase sempre são inesquecíveis.
Até mesmo a Literatura já esteve presente no Hospital Feliz Lembrança, que hospedou um dos grandes expontes do século XX. Curioso, né? Vamos aos fatos…
A passagem de Albert Camus, escritor franco-argelino, por Iguape, foi parte de uma grande viagem que ele fez pela América do Sul entre os dias 30 de junho e 31 de agosto de 1949. Camus chegou na cidade na madrugada do dia 5 de agosto, debaixo de chuva, acompanhado do escritor Oswald de Andrade, seu filho Rudá de Andrade, Paul Silvestre, adido cultural francês, e um motorista, cujo nome não é citado, mas que recebeu (de Camus) o apelido de Augusto Comte.
Ao acordar pela manhã, ele espanta-se ao observar os detalhes do local onde está hospedado: um hospital com duas fileiras de camas, paredes recentemente caiadas de marrom e branco, com crostas amarelas até o teto. Presente em seu conto “A Pedra que Cresce”, a descrição é também uma das referências autobiográficas da visita que o autor dos clássicos “A Peste” e “O Estrangeiro”. No caso do conto, refere-se particularmente aos três dias em que aqui esteve e presenciou a tradicional Festa do Bom Jesus, realizada todos os anos de 28 de julho a 6 de agosto. Em vez de ir para um hotel ou para a casa de alguma autoridade local, o escritor foi hospedado no Hospital Feliz Lembrança. Provavelmente não haviam acomodações disponíveis, tal como acontece ainda hoje no período da festividade.
Além de visitar o Brasil, onde esteve em São Paulo, no Rio de Janeiro, na Bahia e em Fortaleza (Ceará), realizou conferências em Buenos Aires (Argentina), Santiago (Chile) e Montevidéu (Uruguai). Sua passagem por esses países está registrada no livro Diário de Viagem, que reúne as impressões do autor. A viagem ocorreu num momento em que Camus sofria com uma tuberculose mal curada e aparentemente em depressão, o que é bastante nítido no tom de seus textos literários e nas suas anotações de campo. Filho de emigrantes franceses, nasceu na Argélia em 1913, onde passou a sua infância e grande parte da juventude. Além de A Peste, O Estrangeiro e O Exílio e o Reino, tem entre suas principais obras O Homem Revoltado e O Mito de Sísifo. Albert Camus faleceu em 1960, na França, vítima de um acidente de automóvel.
Foi a partir de Iguape que Camus sintetiza a imagem de um país em que “os sangues misturam-se a tal ponto que a alma perdeu seus limites”. Felizes lembranças, creio, dignas de notas que juntam Camus, referência literária mundial, à cidade de Iguape e, particularmente, ao Hospital Feliz Lembrança.
No livro de visitas Camus nos deixou estas palavras: “Ao Hospital Feliz Lembrança, que traz tão bem o seu nome, com a homenagem calorosa a este Brasil que aboliu a pena de morte e a esta Iguape onde a gente compreende esse gesto”.

O Hospital Feliz Lembrança iniciou as suas atividades em 24 de junho de 1875 e, posteriormente, foi declarado de utilidade pública federal, conforme os registros junto ao Governo Federal (RENIPAC). Interditado o seu uso pelo Ministério da Saúde, ao final da década de 90, não houve o provimento dos serviços por outra instituição. Assim, desde aquela ocasião e passados mais de dez anos, continuamos sem maternidade em nosso município. Nossos bebês nascem nos serviços de emergência ou no Hospital Regional do Vale do Ribeira, em Pariquera-Açú. O prédio em ruínas demonstra o nome com outra abordagem, na qual, felizes sim, são essas e outras lembranças e que, no mais, só elas nos restam.






















