Arquivo do dia: 15/11/2007

Caminhos na urbe

O caminhar de um ponto a outro já foi a única forma possível de locomoção. Mesmo com as variadas  alternativas de transporte que dispomos, ainda há um certo prazer em andar, principalmente quando se está numa cidade livre da poluição do ar e com belas paisagens. O cenário que nos cerca, transpirando história, é algo indescritível para irmos pela cidade a pé, em aberta admiração. Quando muito, também temos as árvores colocadas na cidade que, a despeito de serem nativas ou não, alegram e trazem bem estar para os caminhantes.

Assunto espinhoso, acho eu, é lembrar de situações que nos tornam reféns uns dos outros. Procurarei não ser incisivo em demasia, ok?

A questão é de amplo aspecto e, penso eu, até seria mais exato fazer primeiro uma enumeração; mas, vamos em prosa até onde pudermos, ou melhor, vamos andando…

Seguindo até àquele lixo acomodado em meio à calçada, o que transformou o passeio, que público seria, num esparamo de sujeiras por algum cão deixado à solta. Alguns metros mais a frente, após eliminarem uma árvore, sobrou parte do tronco aflorando; basta um descuido, e lá ocorre um tropeço. Logo mais, encontramos aquelas calçadas repletas de buracos e uma torção no pé pode vir a calhar. Continuando o admirar da nossa urbe, se descuidarmos um pouco é possível nos arranharmos em grossos espinheiros plantados rente às casas ou, em alguns casos, entre o meio fio e o muro ou parede da edificação.

Ainda há uma espécie linda, chamada popularmente de primavera, cujo nome na botânica é interessante. “Bounganvillea spectabilis”… “Bounganville” é o nome da pessoa que tornou a planta conhecida por toda a Europa, entre 1767 e 1769. Reza a história que este francês, pirata segundo as más línguas, teria se encantado com esta singular planta que ocorria nas serras do Rio de Janeiro. Desta forma, coletou alguns exemplares que foram levados à Europa e ofertados ao Rei Luís XIV, assim difundidas pelo cultivo por todo mundo. Creio que o pior tipo de pirataria, a ambiental, foi havida como prática corriqueira por nossos antepassados. “Espectabilis”, como sugere o nome, diz respeito aos grossos e fortes espinhos existentes em seus galhos.

Apesar dessa planta, em pequeno tamanho, precisar de muro ou outro apoio para crescer, depois de certo tempo ela forma um belo tronco e segue, no pleno avançar com seus galhos. Se não houver onde apoiarem-se, eles crescem do muro em direção ao chão. Na maioria das vezes, seus galhos formam um conjunto harmonioso com outras plantas trepadeiras e tornam agradável a vista da frente das casas. Evidentemente, trará algumas conseqüencias desastrosas para quem passar por perto. Como segue em seu crescimento, seus galhos despejam-se pela rua; se você acha que os seus espinhos incomodarão apenas a quem estiver caminhando, passe com o carro e observe o resultado nos riscos que surgirão na pintura.

Noutro lugar encontrei algo peculiar. Três meses atrás, parte das paredes de uma geladeira foi depositada frente à calçada de uma casa, e lá ficou, tal como uma caixa… Logo a seguir, o vizinho que está provendo reformas em sua casa, lotou a ex-geladeira (agora uma caixa) com entulhos. Passado algum tempo, o mato surgiu sobre os entulhos e até mesmo algumas plantinhas já nasceram nela. Acredito que, em breve, o DPRN irá até lá e não permitirá que seja removido. Até parece ficção…

Pelo ‘leito carroçável’ das ruas – não assuste-se! Carroças é o que tornam-se nossos carros ao transitar por elas -, a  buraqueira é histórica e, penso eu, em breve poderia ser tombada como patrimônio histórico cultural, enquanto tombamos também em razão dos buracos ao caminhar. Ao menos, já é parte da nossa história recente as décadas com esse pavimento precário. As pessoas que arriscam-se nas ruas, fugindo das dificuldades das calçadas, podem por vezes acidentarem-se pelo trânsito de carros, motos e bicicletas. Pelo que notamos, boa parte da nossa gente é composta por idosos e crianças, justamente os mais prejudicados com as dificuldades e obstáculos por onde precisam andar.

Quisera fosse apenas uma questão simples; Penso que não. É necessário que os moradores façam as podas, consertem suas calçadas, retirem os espinheiros e qualquer outro obstáculo do passeio. O direito do outros, de transitarem pelas calçadas livres de empecilhos, precisa ser respeitado.

Desde que se viva em sociedade, uma enorme variedade de leis procuram ‘organizar’ nosso comportamento junto a sociedade e, de tal maneira, é possível haver convivência harmoniosa. Sim, digo ‘é possível’, ainda que seja difícil e algumas vezes incômodo, exigir aos amigos que cumpram as leis. Porém,  ao tornarem as calçadas trafegáveis, o resultado final será benéfico a todos.