Outro dia estive pescando na ponte do valo grande onde, em princípio, deveria haver uma comporta. Digo “em princípio” porquê era parte do projeto original; se tal houvesse, as águas do Ribeira iriam compor a paisagem com um imenso alagamento na planície que há junto ao antigo leito. Após o anúncio do Governador Serra, sobre a liberação de verbas para sua conclusão (há 15 anos espera-se tal atitude), em tese é de se aguardar a correção e dragagem do leito do Rio Ribeira, bem como a correção da sua foz.
O histórico do assunto, segundo o site do DAEE
1) “Em 1978, atendendo a constantes reivindicações da população local, o DAEE executou a obra de fechamento do Valo Grande. Entretanto, já a partir de 1979, foram observadas inundações nas áreas baixas do Ribeira, com prejuízos aos agricultores. Em 1980, novas inundações foram observadas, assim como em janeiro de 1981, quando ocorreu o primeiro galgamento da barragem, fato que se repetiu em mais três oportunidades durante a ocorrência das cheias de 1983.
“Em vista disso, o DAEE, a partir de 1980, iniciou uma série de estudos para avaliar, com maior precisão, os efeitos do fechamento do Valo Grande e as alternativas para atenuá-los. A análise técnica e econômica dessas alternativas levou o DAEE a propor o rebaixamento do maciço e a construção de vertedouros com comportas sobre a barragem, como solução definitiva para o problema.
“Em abril de 1990, foram iniciadas as obras civis para implantação de vertedouros com comportas. As obras de concreto estão concluídas, restando ainda a instalação dos equipamentos eletrome-cânicos (comportas) e a execução de serviços e estudos complementares (incluindo o monitoramento do complexo lagunar Iguape-Cananéia), cujo custo total estimado é de R$ 12 milhões.”
Passado algum tempo, vem o governador e anuncia a liberação para o DAEE de 20 milhões de reais para obra. Porém, restaurar o curso do Ribeira e sua foz, ao seu trajeto original, normalizando o fluxo das águas aparece como ‘não recomendado’ em razão dos altos custos, conforme os relatórios oficiais (1), o qual transcrevo (em parte) abaixo:
“Retificação e desassoreamento do Ribeira Velho:
“O Ribeira Velho (trecho do rio da Ribeira entre Iguape e a foz) tem a extensão aproximada de 27 km. A obra de retificação e desassoreamento do canal seria executada ao longo de 26,5 km de extensão, por dragas de sucção e recalque e por escavadeiras a cabo. A seção a ser dragada teria aproximadamente 300m de largura no fundo, altura média de 10m e taludes das margens com inclinação de 1:3. O volume de dragagem estimado seria da ordem de 80 milhões de m3.
“A magnitude da obra fica evidente quando se analisa o seu cronograma estimativo, que prevê a implantação de todo o serviço no prazo de 7 anos. Além disso, seria necessário considerar que, por se tratar de um canal flúviomarítimo, seriam necessárias constantes dragagens de manutenção, a menos que se realizassem obras fixas ainda mais onerosas.
“Em princípio, a grande envergadura e elevado custo da obra (estimado em US$ 530 milhões, sendo cerca de 80% correspondente aos serviços de desassoreamento) e de sua manutenção, desaconselham sua adoção.”
Em outras palavras, haverá comportas sem que seja melhor pensado as conseqüencias práticas que envolvem os alagamentos na zona rural. A enorme “planície alagável” formada junto ao leito do Ribeira traz uma preocupação primordial a muitas pessoas. Os estudos do DAEE contemplam ainda a remoção das famílias para núcleos habitacionais do CDHU(1) nas áreas de risco das cheias. Porém, ao permitirem cheias (mesmo que controladas) elimirão o sustento das famílias; não bastará alocarem-nas em residencias urbanas e deixá-las em condições mais difíceis de proverem o próprio sustento.
Após ler o estudo do DAEE, uma pergunta me surgiu: Como uma das contrapartidas pelo uso do potencial hidrelétrico (que o Grupo Votorantim busca ao instalar a usina do Tijuco Alto), porquê não incluir às despesas de tal grupo empresarial a retificação do curso do Ribeira, sua dragagem e a correção da foz e, inclusive, a do Icapara? Pelos estudos do DAEE, seriam necessários quase 700 milhões. Como outro resultado, teríamos na região interligada pelo Ribeira uma hidrovia com potencial para cargas. Havendo esse percurso navegável, um imaginado porto em nosso região seria uma hipótese plausível. Afinal, dentre as modalidades de transporte, a segunda mais barata é a hidroviária e uma imensa ‘estrada’ interligaria o vale do ribeira. O bom disso é que não apareceriam tantos buracos e não haveriam pedágios. O custo de manutenção de hidrovias – em cursos regulares de rios -, é de 5% do que se tem numa rodovia, considerando-se a mesma extensão.
Para o ‘pós-fechamento’ outras incógnitas existem, principalmente em relação a pesca e, espera-se, novos estudos do Instituto de Pesca (2), redefinindo as áreas de pesca da manjuba e outros pescados, devem surgir. Ao mesmo tempo, com a regularização das águas do Mar Pequeno, as possibilidades de negócios que envolvem nosso litoral será multiplicada.
Enquanto eu lá pescava, na inacabada obra do Estado, perguntei-me; ao voltar em casa, acabei pescando essas informações ora reproduzidas. Porquê peixe, lá no valo grande, apenas dois robalinhos minúsculos…
Quero aqui deixar também uma excelente indicação de leitura, relativa à barragem do valo grande e suas implicações. Leia em http://www.pesca.sp.gov.br/noticia.php?id_not=1629,




















