Arquivo do dia: 15/12/2007

Auto-explicativo (3)

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Da Selva das Águas ao Redor (2)

Continuamos hoje a série, com a parte 2.
A Selva ao léu

Com atitudes próprias de um déspota, o Alcaide exercitou por muitos anos a sua prepotência, sem que tivesse qualquer adjetivo com méritos reais. Rei sem coroa e sem súditos, era hábil na prática de gritar pelo seu desejo, já que não lhe bastava tê-lo para que acontecesse. “Eu sou o Alcaide!”, gritava ele. “Devem-me obediência!”, insistia ele. Levou, então, o assunto em consulta aos Quelônios, que após uma boa temporada de questionamentos – o tempo lhes é a semente da (im)perfeição -, sabiamente exararam a resposta, em apensos lentamente produzidos:

“Excetuando no que segue-se, vemos com isenção que não há ilegalidade; nos é oportuno questionar alguma moralidade? Isso é algo que não nos cabe! Nós, seres do conselho da Suprema Tartaruga Feliz, deliberamos: Sê à vontade sua, caro senhor, pois nada temos de ilegal se tais prerrogativas do cargo existem.”

Um Quelônio, altamente qualificado, em ação.

Assim, ao chefe resultou usar e abusar de seus privilégios, ditando o rumo da Selva das Águas ao Redor, diante de gargalhadas que lhe expunham ao ridículo. Porém, tal local seguiu à descoberto, tendo dele as atitudes que remontam à monarquia. Entre os populares ele era visto como um ser inferior, em razão de suas vis atitudes, enquanto imaginava-se a si mesmo com galhardia. Abafados clamores dos aliados surgiram; “Sede monarca por teus atos e predicados, não o queira sê-lo apenas por tua vontade!”. Não havendo qualquer ato que lhe indicasse nobreza, ele gritava tanto que não conseguia sequer ouvir o que lhe diziam; por fim, da vileza lançou mão com todas as suas forças e prosseguiu em seu governo, sobrepujando a todos e beneficiando a poucos.

“Não imperiosos seriam os ditos seus que subjugassem, pela sabedoria, àqueles que se lhe opusessem”, recomendavam o Conselho dos Caribus… Não! Preferiu ordenar e, em chamado aos Caribus, num de seus (des)mandos. clama à vontade “Ora, as leis… Às leis!”. “Reenscrevam-nas, a minha vontade! Afinal, só existe o Conselho dos Caribus para atender ao meu desejo! Eu não os pago mensalmente? Cumpram as minhas ordens!”. Feito esse discurso, tal atenção era dada às suas vaidades que mesmo entre os aliados pouco prestígio lhe restava. Tal era a beberragem do vinho da vaidade que os mais de quarenta aliados, relegados a segundo plano, procuravam máscaras para disfaçarem-se e terem alguma chance no pleito próximo; alguns, desejando cargos no Conselho dos Caribus, flanavam como borboletas na primavera ao saírem dos casulos. Quem sabe, mostrando-se com outra natureza, não enganariam aos seres eleitores?

Seus aliados, mesmo em quantidade menor que a inicial, ainda eram muitos e muitos ouvidos possuíam. Contavam com uma imensa língua e, se dizia, o que lhes chegava aos ouvidos saia pela boca sem ao menos passar pelo cérebro. A lenda contava que suas orelhas eram maiores que a de todos os outros seres da selva. Pensava-se, a princípio, que esses aliados tinham tais atributos por serem bons ouvintes. Mas, descobriu-se que não entendiam o que os demais falavam. Tais orelhas, afinal, a ciência posterior avaliou que não eram enormes: na verdade, a pequena cabeça é que nos oferecia a visão de que possuíam grandes orelhas. Restava como verdadeiro as imensas línguas e a peculiar capacidade de falar asneiras, e assim, desejavam se transformar em Caribus graças a desinteria verbal adquirida ao lado do Alcaide. Asseguravam-se de que, após elegerem-se Caribus – ainda segundo a lenda –, na diplomação para exercer o cargo eles perderiam as orelhas e, em troca, alguns galhos nasceriam rapidamente em suas cabeças.

O discurso dos novos pretendentes a Caribu era de que a Selva estava ao léu, com o sustento das famílias a descoberto, com o serviço de saúde em remunerado ócio, e que muitos seres estavam migrando em busca de outras selvas. Tais comentários, surgidos dos próprios aliados, deixava o Alcaide ressentido – ainda que poucos se lhe opusessem –, porque um e outro o abandonara e agora discursava como candidato ao seu posto de Alcaide.

Registraram os Quelônios: “É à vontade do Alcaide! E de tal forma é legal!” Perpetuando a miséria ao seu entorno, àquelas imperativas determinações dele seguiram-se outras e outras. Por sorte daquela selva, os cargos ocupados pelos Caribus e Alcaides são eletivos; assim, existe uma remota possibilidade de que um dia ela deixe de estar ao léu…