A realidade é, para a maioria, ficção.

Tenho dormido com a idéia de que o homem é, naturalmente, um ser capacitado para a destruição em massa. Vivemos em um país assolado por miserabilidade social, moral, com um mercado quase escravista, com doenças endêmicas e pestes de toda sorte. No entanto, para a maioria tudo parece mera obra de ficção, pois é mais conveniente varrer a sujeira sob o tapete, se não há tapete, basta não olhar para a sujeira.

A maioria prefere fingir que vivemos em um país contagiosamente feliz, cujas mazelas podem ser convertidas em vantagens pessoais e até mesmo coletivas. A maioria não precisa realmente compreender as coisas, pois se contenta em se convencer pelo argumento que no presente lhe parece mais lógico. De qualquer forma, a única certeza que podemos ter é de que os mais frágeis serão sacrificados, para não usar a expressão chula que certamente seria mais exata.

Não nos importamos que o mercado internacional tire partido de nossa pobreza, tornando-a um produto exótico e sedutor, pois somos especialistas em nos orgulhar de tudo o que é genuinamente nosso. A única lógica que convence a todos de modo unânime é a de que alguém precisa apanhar no final, seja honesto ou não, o importante é que não possa se defender. Somos todos explorados da mesma forma, isso é coletivo, não obstante, o protesto torna-se ato individual. Mesmo assim quando o que protesta vence a batalha, aí todos se posicionam a seu favor para bater no carrasco que se torna vítima. Isso parece compensar a exploração desumana a qual são submetidos.

Os dominados só suportam tal situação pela esperança de um dia virem a dominar também. Foi assim no Brasil da colônia e continua sendo no Brasil neoliberal. Nosso Presidente da República confirma o argumento e está se “compensando” pelos longos anos de exploração sofridos. Então, é muito cômodo simplesmente culpar a classe “burguesa” pelos eternos descaminhos de nosso país que nada tem de nação, enquanto isso muitos operários que hoje são ricos (embora recusem o estigma de burgueses) se sentem aliviados de toda a culpa por enfim poderem realizar seus famintos desejos de consumo e de mandonismo. Da mesma forma, observamos o país inteiro clamando por vingança no caso da pequena Isabela, como se colocar os supostos culpados na cadeia livrasse todos os pais e tutores de menores do país de atos gravíssimos de negligência, violência e egoísmo.

A explicação é simples: a maioria não quer tornar o mundo melhor, quer apenas uma oportunidade para externar sua violência reprimida, quer simplesmente fazer indivíduos criminosos pagarem por crimes e pecados coletivos. Isso é bem mais cômodo, pois assim não precisamos mudar praticamente nada em nossa sociedade, basta preservarmos momentos de catarse em que um judas qualquer possa ser apedrejado. Então, todas as outras canalhices são esquecidas e o sentimento artificial de paz, ordem e justiça volta a reinar nos corações humanos daqueles que parecem sentir tal repulsa pela realidade que nunca a encaram de frente, como ela se apresenta em seu contexto integral.

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <pre> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>