Entrevista com o Escritor, Cientista Social e Professor Benedito Machado
Em maio de 68 principiaram as manifestações estudantis na França, onde slogans dos jovens (grande parte é hoje sexagenário) agitaram, por todo o mundo e inclusive no Brasil, idéias contrárias à formas como existiam as relações sociais entre poder instituido e indivíduos. Sem muito compromisso ideológico, na maioria das vezes, as vozes somavam-se nas multidões em slogans que refletiam desejos reprimidos de manifestação ou de um mundo melhor. (leia+►). A França, na época, vivia sob a didatura de Charles de Gaulle e, no Brasil, amargávamos também os primeiros anos da ditadura. Por aqui culminaria com o Ato Institucional nº5 (AI-5), que viria a suprimir uma gama de liberdades individuais e atrelar qualquer divulgação ao crivo de censores.
É algo curioso a dualidade dos seres humanos; se há total liberdade de expressão e de ações – delimitadas pelas leis -, como atualmente, nota-se apatia em relação à participação político-social. Se não há, alguns passam a exigir direitos de manifestações, de opinões. Em nossos dias reclama-se que não há bons políticos, que há bandalheira em suas atitudes; porém, não levantam-se para agir no processo democrático e nele evidenciarem ideais mais nobres que os atuais.
Abaixo, entrevista com o Escritor, Cientista Político e Professor Benedito Machado, que muito contribui com o assunto:
D.I. - Onde o Professor Benedito Machado atuava naquela época?
BM – Na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP.
D.I. - Qual o significado de maio de 68, na perspectiva histórica recente?
BM – Mudança de paradigmas. O mundo político, intelectual e econômico da época estava polarizado entre esquerda e direita, vale dizer, EUA e URSS, limitando as respostas para as crises do estado, do pensamento e do mercado, a somente essas duas possibilidades. Dentro dessa limitação, na Filosofia européia, por exemplo, o pensamento de Sartre era contestado pelos adeptos de Raimond Aron, que chamava o marxismo de “ópio dos intelectuais”, e a briga parava por aí, deixando de lado toda a contribuição de outros filósofos, como Heidegger, Wittgeinstein, etc.
DI – O que entende-se por “L’imagination au pouvoir”, um dos slogan da época na França?
BM – Exatamente sair daquele círculo vicioso do pensamento, pela criatividade da imaginação. De certa maneira, era um basta ao absolutismo do racionalismo kantiano (a secura da razão pura), que devia ser não propriamente substituído, mas complementado pela imaginação, pela arte, pela beleza, enfim.
DI - Houve algum tema parecido no Brasil?
B.M. – Houve muitos, mas apenas como manifestações pessoais ou de pequenos grupos, nunca como movimento nacional. A FFCL-USP, o Teatro de Arena (Gianfrancesco Guarnieri, Vianinha, etc.), é o que me ocorrem, no momento, sempre no eixo Rio-São Paulo. Infelizmente, a Ditadura Militar, da época, abafou tudo.
DI - A que o Professor atribuiu a aparente ‘apatia’ à participação política dos jovens?
BM – Não são os jovens que devem ir à política, mas esta é que deve ir aos jovens. Os jovens universitários que se tornaram políticos (FHC, Serra, Covas) o fizeram porque eram pessoas excepcionais, em cultura e participação na política estudantil. Nunca os estudantes participaram “em massa” da política. Era sempre um grupo pequeno, que fazia os movimentos, de reivindicação ou de esclarecimento. Eu fui do Diretório Central de Estudantes, em Juiz de Fora (onde fiz o “Científico” – como era chamado o curso, então), e convidei muitos políticos para fazerem palestras, sobre temas nacionais, mas a participação dos estudantes só era grande quando se reivindicava diminuição no preço do ingresso nos cinemas.
























