Diálogos imaginários
A nata da intelectualidade vale-ribeirense reuniu-se no Clube XV para os colóquios de todos os meses. Vieram vultos de todas as épocas e de todos os espaços astrais. Sentados ao redor da vasta mesa de jacarandá lavrado, tendo à cabeceira, mais por sua provecta idade do que por outra coisa, destacavam-se o Bacharel Cosme Fernandes, o muito famigerado Bacharel de Cananéia, ladeado pelo turbulento (pero no mucho) capitão Rui García Mosquera, vendo-se, na outra extremidade, os majores Ernesto Young e Ricardo Krone. Ao observador mais atento não passariam despercebidas as figuras inconfundíveis de Domingos Bauer Leite, J. Mendes, Francisca Júlia, Nícia Silva, além da veneranda dona Joana Maria, de Ivapurunduva, e do Espanhol de Goyntãhogoa (Sete Barras), acompanhados de alguns populares, como a Preta Bebé, de Prainha, e Nhanhá Targina, de Iguape.
Quem abriu o colóquio foi Domingos Bauer Leite:
– Quando eu era criança pequena lá na minha velha Xiririca, sentado às margens da Ribeira, debaixo de uma copada figueira, vinham-me à mente os versos que, anos mais tarde, publicaria em “Oasis”. Minha fértil imaginação, no entanto, por mais prolífica que sempre fora, jamais imaginaria que, muitas décadas mais tarde, de minha estirpe xiririquense sairia um jovem e dinâmico deputado estadual. Com as bênçãos de Nossa Senhora da Guia, nossa amada padroeira.
– Pois é, caríssimo Bauer – era Francisca Júlia quem falava – eu também, quando me quedava, contemplativa, às margens da Ribeira, em minha velha Xiririca, ao lado de meu maninho Júlio César, nunca poderia imaginar que, anos mais tarde, ainda no vigor de meus vinte anos, poetas de nomeada como Bilac colocar-me-iam no panteão dos grandes poetas nacionais; e nem em sonho eu poderia supor que até o “Bruxo do Cosme Velho” escreveria linhas elogiosas a meu respeito. A minha impassível e marmórea Musa, no alto do Olimpo, jamais tal profetizaria…
Encantado com a presença de sua adorada poetisa, J. Mendes, com o espírito todo enlevado, declamou a estrofe inicial de “Musa Impassível”: “Musa! um gesto sequer de dor ou de sincero/ Luto jamais te afeie o cândido semblante!/ Diante de um Jó, conserva o mesmo orgulho, e diante/ De um morto, o mesmo olhar e sobrecenho austero”…
– Você bem que merrece todos os lourros que lhe são devidos, querrida Chiquinha – o major Ricardo Krone, com seu forte sotaque germânico, a cerrada barba branca e o lustroso chapéu côco, degustava um copo de vermute. – Mas querro comunicarr aos carros companheirros que, tendo chegado há pouco de Xirrirrica, acabo de descobrirr uma imensa forrmaçón geológica subterrânea, que, na falta de melhorr denominaçón, chamá-la-ei de “Grruta da Tapagem”. A gente humilde da terra garrante que Mefistófeles habita em suas entrranhas… Trrouxe até uns ossos de megatérrios que por lá encontrrei. Enviá-los-ei aos museus de Eurropa, dos quais sou membrro-correspondente…
Todos se entreolharam surpresos. O Krone sempre estava descobrindo alguma novidade, que ganhavam um sabor todo peculiar quando narradas com seu sotaque carregado. Nícia Silva, que acabara de chegar da Europa, onde se apresentara aos reis da Inglaterra, disse a todos que cantaria algumas árias de “Aída”, no Theatro Aurelina, e desde já convidava a todos para o espetáculo. Só lamentava que sua filha Gilda de Abreu e seu genro Vicente Celestino estavam constipados, e ficaram no Rio de Janeiro.
Com seu sotaque lusitano, castiço, o Bacharel de Cananéia, que bebericava um gole da pinga “Cristiano”, não se fez de rogado, e, apoiado por Mosquera, disse, peremptório:
– Aquele safardana do Martim Afonso pensou que eu fosse baixar a cabeça, ora, homessa, justo eu, Cosme Fernandes, o Bacharel, senhor de todos estes domínios! Ele por certo está a delirar! Eu e meu amigo Mosquera pilhamos um navio de piratas gauleses na Cananéia, seguimos em direitura de São Vicente e mostramos que conosco não tem isso de intimidação! Ateamos fogo na vila e demos fim até no Livro do Tombo! Mosquera voltou comigo, mas tem planos de ir brigar lá para as bandas do Rio da Prata…
– Mi amigo Cosme está certíssimo! – confirmou Mosquera, em seu mal disfarçado portunhol. – Por esta semaña, pegarei el entroncamiento del Peabiru, que passa por Iguape e Cananéia, e partirei sem mais tardança para el Paraguai. Si mi buena estrela ajudar, talvez yo retorne daqui a uns años traciendo em las algibeiras mucho ouro e plata de los incas. Quien viver verá!
Enquanto J. Mendes colhia um autógrafo de Francisca Júlia em seu exemplar original de “Mármores”, o Espanhol despejou sobre a mesa parte do ouro que trazia de Goyntãhogoa, enquanto falava, entredentes e de punhos cerrados:
– Que El Rey vá esperando sentado! No le pagarei nem uno quinto deste ouro! Que vá cobrar de su primo de Francia!…
A veneranda senhora dona Joana Maria, toda vestida de preto, com os longos cabelos brancos caindo-lhe por sobre os ombros arqueados, não conseguia conter as lágrimas ao contar que seus negros, todos libertos, prestaram-lhe emocionante homenagem, com direito a Te Deum Laudamus, celebrado na capelinha de Ivapurunduva. Ao que a Preta Bebé, com um sentido suspiro, balbuciou:
– É uma santa essa senhora dona Joana Maria! Amiga dos preto, devota da Virge do Rosário… E o Vice-Rei ainda tentô confiscá sua escravaria! Mas a nossa santinha do Rosário não permitiu tar marvadeza. Eu bem que dizia: “É fitiço, sinhá, é fitiço!”. Rezâmo uns rosário e a santinha iluminô a mente daquele carcamano… Em agradecimento, nhá Joana sortô os seus preto. Que santa mãezinha!…
Quando o relógio da Igreja Matriz soou meia-noite, o porteiro do clube, demonstrando o cansaço de várias noites mal-dormidas, começou a fechar as pesadas janelas. Qual não foi, porém, a surpresa geral, quando, pela porta principal, entrou o maestro Paulo Massa, acompanhando de seus músicos da Banda Santa Cecília, que começaram a executar, com galhardia, a valsa “Saudades de Iguape”. Nhanhá Targina não pode deixar de exclamar:
– Esse danisco do Paulo Massa é mesmo um cabra sacudido!…
(Publicado originalmente no “Jornal Regional”, nº 797, de 24-10-2008).
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