de Gastão Ferreira
Em irônico texto, repleto de alegorias e referências históricas e míticas, o autor traz à reflexão alguns temas do cotidiano de U’wa’pe*.
A Arca de Nãoé
Nãoé despertou apavorado, pela centésima vez tivera o mesmo pesadêlo. Tupã lhe aparecia em meio a raios e trovões e lhe ordenava construir uma ygara (jangada em tupi guarani), com a qual devia salvar da extinção alguns elementos da região.
- Será que dormi torrado(1) novamente? Não é possível acontecer logo comigo uma coisa dessas! Pode ser que meu nome atraia esses pesadêlos! Como eu gostaria de ter sido chamado de carlinhos, galvão, agenor, benedito ou até mesmo de um inofensivo josé! Mas não! Meu pai foi colocar esse nome ridículo de Nãoé. E, agora esse tal tupã que não me deixa dormir sossegado. Gritando a noite toda no meu sono:- Nãoé! Construa uma ygara! Os tempos chegaram! A terra será alagada, tudo surucará! Salve pelo menos alguns de meus fieis, amados, honestos, puros e dedicados filhos. Nãoé! Salve-os!salve-os!
Nãoé, sem querer querendo, contou seu sonho no bar do dito e logo todo o povoado ficou sabedor. Formou-se uma multidão implorando uma vaga na ygara de Nãoé.
Nãoé até gostou do puxa saquismo do povão e de improviso tascou um discurso:- meu povo do valo grande e minha pova do valo pequeno notem vocês que pelo reduzido tamanho da ygara não poderei levar a todos comigo nessa jornada de salvação. Tupã falou e disse:- só os meus fiéis, os puros, os honestos e dedicados serão salvos do nefando perigo. Todo o fofoqueiro, mensaleiro, nepotista, fdp, cuidadores da vida alheia, condenados por improbidade ou não, puxa sacos de carteirinha carimbada ou não, e o escambáu a quatro ou a cinco, eu não levo! Eu não levo! Não levo!
O local ficou quase vazio. Um grupo de crentes que orava pelo final dos tempos, pediu vaga. Nãoé foi categórico:- crentes? Nem pensar, não entra na minha ygara nem que jeová tussa! Vocês não vivem dizendo que já estão salvos? Então, que palhaçada é essa? Só posso salvar os não salvos, os do mundo, e por favor, parem com o histerismo, e, outra coisa nada de traumas e pragas!
Um grupo gls/pvc solicitou agasalho. Gls? Não posso! Se for levar toda a fauna da região a ygara afunda. Por favor, segurem a franga. Por favor! Por favor! Cada um no seu quadrado.
O pessoal da terceira idade, digo da melhor idade, implorou uma vaguinha. Que é isso meus véios! Vocês estão no fim da picada, digo, da melhor idade, deem o seu lugar para os jovens que terão um futuro garantido e depois não posso perder tempo fazendo sopinhas e papinhas prá menininhos e menininhas decréptas. Eu heim!
Foram assim descartados todos os que o procuravam. Políticos, apolíticos, ateus, ameus, anossos, atoas, sãos e aleijados, santos e pecadores. Os habitantes do lugarejo estavam inconformados e prontos para linchar Nãoé, quando se formou a maior tempestade já vista. O céu escureceu. Raios e trovões, pedras de gêlo de cinco quilos, vendaval e vendavinho, o mundo ficou surdo e mudo perante o dantesco rebuliço. O toró começou. Tudo estava sendo alagado. As mansões, os casebres, as casas de cômodos e incômodos, as casas de tolerância e intolerância, os bares e butecos, as igrejas, mesquitas e sinagógas, em fim o pequeno vilarejo sem nome pelo jeito jamais teria um nome, pois tudo estava sendo destruído. Os poucos que sobreviviam em cima das árvores, mas que logo pereceriam afogados ainda notaram a ygara que flutuava nas águas revoltas, levando entre todas as criaturas vivas que habitaram o local, apenas bilú, margareth, nolinho, Nãoé, e um cachorro sarnento que jamais entendeu porque foi salvo.
A jangada vagou por oitenta dias e setenta e nove noites e aportou num local aprazível. Um sitio cercado de verdes montanhas e um imenso e majestoso rio. Esse local, num futuro muito distante ficaria conhecido como o fantástico e inacreditável reino de pindaíba. Nãoé e os sobreviventes foram os primeiros a descobrí-lo e habitá-lo. Quem quizer maiores detalhes, favor consultar o volume-i de crônicas de pindaíba, o inicio.
A descoberta de pindaíba
“Os últimos filhos de tupã dos últimos dias” estavam por aquí com os icaparanos que só pensavam em festas, festinhas e festões. Com a incrementação do polo turístico, de gente e gentinhas entrando e saindo da vila, até os animais silvestres desapareceram temerosos de virarem espetinho de gato assim que botassem a cara no povoado. Meio quilo de mico-leão-dourado custava mais caro que ova de tainha em peixaria, e, um insignificante tapir valia o prêço de um bezerro desmamado.
“Os últimos…”, que equivaliam aos crentes de nossa época, diziam que não eram do mundo. O povinho ateu e atôa sorria e comentava:- pode ser que eles não sejam do mundo, mas que as filhas são são! E ripa na xulipa. Esses atos e ditos obcenos constrangiam sobremaneira os “últimos…”, os quais partiram para os finalmentes. Fizeram uma reunião no terreiro (?) De tupã e após sacrificarem um jacú preto (suas galinhas pretas da época), tomaram diversas decisões. Venderiam seus bens moveis e imóveis. Os moveis eram os escravos porque se moviam seu burro! E os imóveis os inúmeros prédios comerciais onde ocorriam as orgias, bacanais e cachaçadas homéricas que tanto ofendiam a moral dos crentes, mas como dindim é dindim nunca reclamaram diretamente dos inquilinos que pagavam aluguéis absurdos pelos lupamares.
Como todo o idiota sabe, dinheiro é dinheiro. “os últimos…”, pediram horrores para vender as espeluncas e os comerciantes não tinham essa grana toda, resolveram apelar para o agiota de plantão, um tal joão qualquercoisa, tinha esse apelido por que comprava qual quer coisa, dava uns enfeites e vendia dez vêzes mais caro.
O povo ignorante como só pode ser um povinho da roça, não concordava com o que os “últimos…” Estavam fazendo e começou um quebra barraco bonito de se ver, isto é, tacaram fogo nas propriedades e em vários irmãos da seita. Foi a primeira e derradeira vez que a raça caiçara tomou brio e partiu para a briga, exercendo sua cidadania. Muita gente foi ao encontro de tupã antecipadamente, na verdade foram tantos os exterminados que até o nome tiveramde alterar. De “os últimos filhos de tupã dos últimos dias”, passaram a se chamar “os últimos dos últimos filhos de tupã dos últimos dias”.
No final do entrevero os “últimos dos últimos…” Foram expulsos daquela sodoma caipíra abaixo de porrete e só com a roupa do corpo. Quem tudo quer! Tudo perde.
Embrenharam-se na mata e como não tinham bússola perderam-se. Foram atacados por terríveis onças pintadas e não pintadas, jaguatiricas, lobos guarás, macaco prego, macaco aranha, macaco tamanduá, macaco formiga. Todos esses bichos eles mataram de letra e praticamente acabaram com suas raças. Sofreram mesmo foi nos bicos das mutucas e mosquitos pólvora.
Nessas andanças o povo de tupã foi dar (?) no pé da serra, itatins, jipuvura, mumuna, quatinga. Ou seja, em qualquer estância que chegavam eles davam, e, como davam. Davam canceira, cabeçadas e com os burros na água. Resolveram invocar tupã e pedir conselhos. Seguiram o sagrado ritual e após muito cauim, uhásca e canabis, sentiram a presença do puro, benevolente, humilde e clemente tupã, que amorosamente aconselhou seus filhos:
- Bando de cretinos, fdp, gls, perdedores do cacete! Como tiveram a ousadia de sairem do local onde eu tinha tudo de graça e começarem a andar pelo meio da mata sem um guia, um mateiro? Meu deus! Sem um mapa. Olhem aqui seus bostinhas, tão vendo aquela trilha ali? Pois é, vão seguindo a dita cuja que todos vocês vão dar em pindaíba. E, nunca mais me incomodem para fazerem perguntas ridículas, para isso tem mãe de santo, terreiro de macumba, cartomantes, o escambáu, me entendeu? Tão pensando que sou o quê? Um moleque de recados? Um candidato a algum cargo precizando de voto, que tem que aturar tudo de vocês?eu sou tupã! Eu sou tupã! Tu… Pã!
Os “últimos dos últimos…” Apavorados e gratos pela bondade e sabedoria de tupã, pegaram a estradinha e tomaram o rumo sul. Aquela coisa de sempre, caminhar, caminhar, caminhar. Comer, comer, comer. Fazer cocô. Beber, beber. Dormir, dormir, dormir e dormir que ninguém é de ferro, ah, eventualmente e na moita fazer mais um “ultimozinho”.
Após dias e dias nesse tédio tedioso, matar onça, esguelar macaco, correr de cobra venenosa e se estapear constantemente espantando mutucas, chegaram a um sitio maravilhoso. Montanhas com todas as tonalidades de verde, bichos correndo por toda a parte, um rio magnífico, um lagamar deslumbrante onde botos, robalos, tainhas e paratís saltavam a flor da água. Era a descrição do paraiso, o local mais belo jamais visto por olhos humanos. A dadivosa natureza parecia gritar:- bem vindos! Bem vindos! Cuidem de mim e eu os tornarei felízes. Venham meus filhos! Fartem-se em minhas árvores frutíferas, saciem sua sede nas fontes cristalinas dos montes, durmam sob esse céu estrelado embalados pelas cantigas do mar. Bem vindos! Bem vindos! Cuidem de mim! Preservem-me.
Os “últimos dos últimos filhos…” Estavam encantados e logo encontraram um ninho de nhambus. Pegaram os ovos e o casal de aves e sacrificaram a tupã em agradecimento ao fim da jornada. Quem teve o dom de ver, viu! A primeira lágrima de dor rolou da face da divina natureza, seus filhos os pássaros choravam com ela.
Os caiçaras
Duzentos anos após a chegada de Nãoé a icapára, ocorreram fatos que mudaram o rumo da saga dos descendentes do grupo original. Houve farta miscigenação entre os aborígines e o pessoal da arca, porem os nomes foram mantidos como uma homenagem ou para se diferenciarem ou por se acharem melhor dos sem eiras e beiras, sei lá. Era um tal de biluzinho, zinho,nolinho, inho,margarethinha, tinha. Veja como essa coisa de gente importante atualmente adorar ser chamado pelo diminutivo é coisa antiga, provavelmente herança dos tais pais e mães da pátria.
Uma praga chamada piratas da barra, que num futuro muito futuro serão conhecidos como o pessoal do banho da dorotéia e seguidores do boi. É o boi? É o boi? Invadiam constantemente a vila e num arrastão (?) Rapinavam os inocentes e pobres habitantes do lugarejo, que eram conhecidos por caiçaras devido ao fato de beberem todas e nunca ficarem torrados.
O denominativo caiçara teve origem na localidade. Um tal benedictus, pobre aldeão plantador de mandióca, teve a brilhante idéia de montar um alambique e começou a produzir caachaça (grafia original da palavra cachaça). Ficando muito rico passou a se chamar dictinhus. Ficou milionário e todos o apontavam como tinhus. Quanto mais rico menos pomposo o nome, devia ser para passar por pobre e assim ninguém pedir favore$.
O mesmo benedictus, dictinhus ou simplesmente tinhus, provava de cada odre de sua produção de pinga, ou seja, vivia torrado.com o tempo o seu organismo se acostumou com a dosagem excessiva de álcool e ele apenas caia bebado e levantava bonzinho, está aí a origem da palavra caiçara (cai e sara).
Voltando aos piratas da barra. Os tais piratas toda a vez que invadiam o lugarejo deixavam suas marcas que podiam ser confirmadas nove meses depois com o nascimento de dezenas de piratinhas. Para amenizar o problema e ter algum lucro com isso, os “da cultura” da época tiveram uma brilhante idéia. Organizaram uma festa anual onde cobravam pedágio dos barcos (eram os ônibus daquele tempo), alugavam terrenos para barraquinhas e sacaneavam os romeiros, digo, os visitantes. (nada a ver com o que vocês estão imaginando).
Os piratas da barra gostaram da genial idéia e propuzeram ao chefe da vila incrementar o calendário turístico com muitos eventos e festejos, assim os da vila poderiam assaltar numa boa os chegantes com altos alugueis de barracas, taxas e sobre taxas, que eles pagariam sem queixas, desde que tivesse muita muié, cachaça e bailécos. Os piratas fariam a segurança e ficariam com um percentual dos lucros.
Dessa maneira surgiu o carnaval, a festa da tainha, a manjubada, folia de reis e rainhas, e, uma centena de festivais e orgias que não deixavam ninguém dormir sossegado e a molecada num cio constante. Uma seita intitulada “os últimos filhos de tupã dos últimos dias”, revoltada com a promiscuidade e por não conseguir prender a pereréca das filhotas que viviam fujindo sem autorização paterna para participarem das bacanais, digo, das inocentes festinhas, resolveram abandonar o povoado de costumes tão depravados e procurar um ninho de paz e tranquilidade onde podessem castamente adorar tupã, fazer filhos, ganhar muito dinheiro, fofocar e sujar as ruas com seus proprios lixos.
A procura teve inicio e muitos locais foram visitados. No próximo episódio vocês tomarão conhecimento desses fatos e decobrirão como, quandoe onde os “últimos filhos de tupã dos últimos dias” encontraram o vale dos seus sonhos.
Icapára
Nãoé abandonou a ygara e imediatamente começou a erguer um povoado. Lembram que aportaram na localidade alem de Nãoé, um tal bilú, nolinho , margareth e um cachorro sarnento. Como Nãoé já era um ancião, digo, estava na melhor idade, não se importou quando nolinho e bilú iniciaram uma aproximação, digamos mais intima com margareth. Era uma graça de se ver, o melhor peixe, a maior banana, o maracujá mais suculento, o mico leão mais bem moqueado, tudo era dado em sinal de amor à margareth, que começou e não mais parou de engordar. Nãoé educadamente interferiu e acabou com o insipiente namorico:- parem de alimentar essa mulher! Parece uma porca de gorda. Daqui para frente só deem água da fonte e casadinho de manjuba, ou ela faz regime ou libero a indiada para vocês.
Foi só Nãoé dar a notícia e bilú e nolinho ficaram ouriçados:
- Cadê? Cadê as indias?
-Estão construindo um sambaqui nas cercanias! Informou Nãoé.
-Nossa vamos ter uma escola de samba no pedaço? Disse uma deslumbrada e loira margareth.
-Que escola de samba menina? Perguntou Nãoé.
-Ué! Se tiver samba aqui, então tem escola de samba!falou margareth.
-Aaí meus neurônios! Exclamou Nãoé.
De comum acordo e também porque era muito trabalhoso construir um imenso e moderno povoado para apenas quatro pessoas, resolveram conhecer o local onde estava situada a tribo indigena. Caminharam… Caminharam… Caminharam uns doze quilômetros e avistaram as malocas. Nãoé ordenou:
- aqui para!
Margareth, a dourada, exclamou boquiaberta:- que lindo nome!icapára.
- Mas quem colocou esse nome nesse belo lugarejo? Perguntou Nãoé.
- O senhor seu Nãoé! O senhor disse icapára.
- Não! Minha linda leitoinha oxigenada, eu disse aqui para, mas podemos chamar esse aprazível local de icapára, tem tudo a ver com esse cheiro de mato, com essa água e esses indios peladões.
Chegaram os selvagens e cercaram os quatro cara pálidas. Após o estágio de reconhecimento, isso é, apalpa aqui, cheira ali, enfia o dedo alí, alá e acolá, começou a confraternização. Tudo prato típico, bugío no espeto, tainha na folha de banana, quatí grelhado, parati e paramim na brasa, suco de cajámanga, araçá e butiá na catáia.
Foi a maior festança. Margareth matou todas as suas fomes, só não tranzou com o cacique por respeito as suas cinco ferozes e ciumentas espôsas. Nolinho e bilú se aproveitaram tanto da catáia quanto das belas, selvagens e nuas indias tropicáis, aprendendo muitas novidades com elas.
Foram convidados a se radicarem no local. Nãoé ganhou uma maloca só para si. Margareth ficou para lá e para cá indo de óca em óca, e bilú e nolinho se amocozaram na maloca dos solteiros e ninguém nunca soube o que aconteceu por lá.
Nove meses após a chegada da gangue, digo, do grupo de Nãoé, margareth teve dois lindos corumins. As vinte virgens solteiras que cuidavam de nolinho e bilú continuaram solteiras, mas cada uma teve seu nenem branquélo. Assim começou a mistura étnica chamada caiçara. Foi em icapára que tudo teve inicio e segundo os livros dos piratas da barra, será de lá que chegará o fim.
Os estudiosos podem encontrar o relato acima em sua íntegra no Volume I – Crônicas de Pindaíba – o inicio.
(1) equivalente à bêbado
Segundo o historiador Roberto Fortes, a palavra Iguape em tupi-guarani tem a seguinte grafia e significado: u’wa (=seio d’água, enseada, baía, bacia fluvial, lagamar) + pe (=em); ou seja, no lagamar, na enseada, na bacia fluvial. O nome é bem apropriado, uma vez que o povoado foi estabelecido defronte à barra de Icapara.
O escritor Gastão Ferreira alerta: qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera coincidência.




















