Cerca de duas mil pessoas acompanharam a I Conferência da Juventude da Ilha Comprida

Considerado caso irrecuperável e com a soma de 132 fugas na extinta Febem, o pedagogo e escritor Roberto Carlos Ramos contou aos jovens como conseguiu superar todas as dificuldades e tornar-se um dos dez melhores contadores de história da atualidade. Também falou sobre a adoção de 25 filhos e a grande corrente do bem: quando adultos ,cada um deles deverá adotar um menino de rua.

conferência da juventude- roberto carlosIlha Comprida – Com uma grande empatia com o público e mensagens de vida inspiradas em sua infância como ex-interno da Febem classificado como “irrecuperável”, o pedagogo e escritor Roberto Carlos Ramos encantou as cerca de mil pessoas que lotaram o Monte Olimpo, na quinta 22, durante a abertura da I Conferência da Juventude da Ilha Comprida. Roberto destacou a força das palavras na vida das pessoas, o poder que elas têm de construir ou destruir um futuro. Estimular ou limitar uma vida.

Para uma platéia formada por jovens, pais e professores, Roberto Carlos afirmou que ninguém tem o poder de mudar o começo da sua história, mas pode modificar o meio e o fim. Foi o que fez com sua vida. Ele morou na favela com o pai, mãe e nove irmãos até os seis anos de idade, quando foi encaminhado para a Febem para tornar-se “doutor”. Atraída pela propaganda do governo, sua mãe achava que a Febem formava grandes profissionais.

apresentações artísticas- conferência da juventude - ilhaNão era o que acontecia lá dentro. Roberto conta que lembra até hoje o barulho dos portões que se fecharam e o inferno que viveu dentro dos muros da Febem. Maus tratos, prisão em quartos fechados e xingamentos foram sua rotina de vida. “Eram pessoas que detestavam crianças”, recordou. Para escapar de tudo isso, somaram 132 fugas. Aos treze anos de idade, sua sorte começou a mudar quando foi adotado por uma francesa que não acreditou nos prontuários que o apontavam como caso irrecuperável: “Aprendi, com treze anos, duas palavras mágicas que mudaram a minha vida: com licença e por favor. Também aprendi a ser educado e conheci palavras que eu não sabia que existiam: ética, moral, civilidade, tolerância”.

Outra importante lição. Roberto aprendeu a levantar a cabeça. Vítima dos maus tratos e xingamentos na Febem, ele só andava com a cabeça baixa. Não olhava para os olhos das pessoas. “Precisei andar com um livro na testa para aprender a levantar a cabeça”, lembrou. Roberto estudou, fez mestrado, escreveu livros – um deles Pedagogia do Amor – e tornou-se um dos dez melhores contadores de história da atualidade.

É com esta bagagem de superação que ele orientou os jovens para que sempre façam o melhor, sempre façam um pouquinho a mais e exercitem o pensamento positivo: “Pensem: eu sou o melhor aluno da minha escola, eu sou o melhor educador da minha cidade, a minha cidade é a melhor para se viver porque eu faço parte dela. Todo mundo falando bem, estará se construindo uma ideologia e as coisas começam a acontecer”.

Roberto também explicou que é preciso enxergar a sorte, agarrar as oportunidades e não se deixar abater por pessoas pessimistas. “O mundo é feito por pessimistas e otimistas. Algumas pessoas vêm e te dão uma força, outros te colocam para baixo. Se você tiver um sonho, insista um pouco mais, persevere um pouco mais. Se o vizinho disse que não dá, persevere. Há pessoas comuns, ordinárias, e há as extraordinárias, as que fazem o extra, que fazem a diferença”. A francesa que o adotou fez a grande diferença na sua vida.

Roberto Carlos explicou que é justamente a situação mais complicada, o problema mais difícil que precisa de maior dedicação dos pais e educadores. “O filho mais bagunceiro é o que mais precisa de sua atenção, de seu carinho, de seu afeto. Educador, pai, professor vencem pela fortaleza que eles são”. Para a juventude, um recado especial: “ Os jovens estão sendo ludibriados pelo valor do ter. É preciso que sejamos valorizados pelo que somos e não pelo que temos. Assistir programas de violência, o cara matando o outro, a coisa vai entrando na sua cabeça e você começa a achar que o mundo todo é assim. É preciso ter bons pensamentos, boas imagens e bons exemplos”.

Roberto Carlos elogiou os jovens da Ilha pela atenção em 1h40 de palestra :“Uma acolhida como essa é como se fosse a primeira atividade da semana e do ano. A Ilha tem que se orgulhar de sua juventude. Vocês são jovens extraordinários”.

Saúde e Perspectivas profissionais

enfermeira priscila simões coleho- falou sobre dst- conferência da juventude ilhaA sexta 23, segundo dia da Conferência, foi aberta com palestra da enfermeira e professora Priscila Simões Coelho sobre o tema “Vulnerabilidade dos jovens e adolescentes para infecções de transmissão sexual”. Com fotos, linguagem coloquial e dados alarmantes do crescimento das DSTs, Priscila destacou a importância da prevenção das doenças sexualmente transmissíveis, da detecção precoce e da necessidade dos pais e mães abordarem o tema com os filhos:”O que não se aprende em casa, se aprende na rua”, explicou. Aos jovens, um recado especial: “ Namorem, divirtam-se, curtam a vida, mas com responsabilidade”.

O prefeito Décio Ventura encerrou a Conferência com a abordagem do tema “Econegócios, perspectivas e oportunidades profissionais na Ilha Comprida”, onde elencou as profissões do futuro e as possibilidades profissionais oferecidas pelo município nas áreas de turismo, manejo dos recursos naturais e aqüicultura. O prefeito também abordou pesquisas nacionais sobre o que pensam os jovens e as perspectivas para o futuro.

“Temos uma gama muito grande de possibilidades de serviços , mas a gente ainda está com a cabeça em São Paulo. Acha que os empregos estão concentrados nos grandes centros, mas não é isso o que acontece mais. Os empregos estão escassos no nosso país. Precisamos passar para os nossos filhos o valor do empreendedorismo, das idéias, da criatividade e a importância de se acreditar na Ilha”.

Décio ventura afirmou que cabe aos jovens a liberdade para ser, escolher e fazer acontecer. “O futuro se constrói a partir do conhecimento. É preciso que vocês saibam empreender, enxerguem e aproveitem as oportunidades, participem e ajudem a transformar a Ilha no melhor lugar para se viver“. Décio Ventura reiterou a importância de construir na Ilha uma política voltada para a juventude, para que tenham o melhor. “Tenham certeza de que teremos um novo momento de políticas públicas para atender a juventude”, explicou.

Organizada pela Prefeitura e jovens da Ilha, a I Conferência foi aberta oficialmente com a presença do presidente da Câmara da Ilha , Marcos Martins de Oliveira, do sargento Rosimar, da Polícia Militar, do delegado de polícia da Ilha Comprida, Carlos Eduardo Eiras Alves, diretores, professores e estudantes representantes das escolas. Houve apresentações de dança da professora Rosana, do grupo Cheerleaders do professor Boka, do grupo de teatro ASA e a bateria de latas da Ong Crescer para o Futuro. A descontração ficou por conta do Silvio Cantos, sósia de Silvio Santos, que recepcionou os convidados no primeiro dia do evento.

“Podemos tudo”

Representando a escola Judith Santana Diegues, o estudante Henrique César Pellerin de Souza.

afirmou que a Conferência superou suas expectativas: “Foi muito bom saber que Roberto Carlos conseguiu vencer apesar da rasteira que vida lhe deu. Ele sempre quis mudar. Nós também precisamos mudar os nossos pensamentos. A Ilha tem potencial para crescer. Precisamos conhecer esse potencial para ajudar o município a crescer”. Tiago Silva Lopes, 20 anos, da escola Monte Carlo , acredita que a partir da Conferência, a Ilha ofereça mais oportunidades aos jovens. “A Conferência foi um grande momento para a juventude aprender coisas novas”.

A presidente do Grêmio da escola Monte Carlo, Gabrieli Araceli , destacou a importância da Conferência para a integração e aprendizagem; “Aprendi que a gente é capaz de qualquer coisa. Foi uma lição de vida para todos os jovens, principalmente a palestra de Roberto Carlos. O que mais me chamou a atenção foi o fato de que ele, numa fase, só olhava para o chão e precisou colocar um livro na cabeça para olhar as pessoas nos olhos. Precisamos aprender com bons exemplos de vida”.

Priscila Suelen Feliciano Barbosa, 14 anos, disse que a Conferência lhe mostrou coisas novas: “Muito legal a história de Roberto Carlos. Ninguém acreditava nele, mas ele venceu. A gente passa a acreditar que também pode vencer na vida. Se os outros falam que você não pode, a gente não deve acreditar”. Denise Gomes da Silva Gato, 16 anos, disse que a Conferência motivou os jovens a terem mais pensamentos positivos: “Seja rico ou seja pobre, a gente pode vencer na vida”.

Ohana Valentin, 14 anos, disse que gostou muito da mensagem de Roberto Carlos: “Ele ensinou que a gente não tem como mudar o começo , mas pode lutar por um futuro melhor, que a gente consegue. A gente é capaz.”. Sua mãe, Marisa Valentim, também achou excelente a palestra de Roberto Carlos:” É algo novo, muito importante para os nossos jovens . É preciso mesmo que eles conheçam bons exemplos de vida, estejam mais atentos ao potencial deles e saibam que a maior riqueza é aquela que a gente constrói dentro da gente “.

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