de Inocêncio Nóbrega
Volta e meia nas negociações hondurenhas. As exigências apresentadas pelos dirigentes golpistas, até então descabidas e inaceitáveis, numa clara demonstração de má vontade para superação da crise, gerada com a deposição, violenta, do presidente Manuel Zelaya, a 28 de junho último. No intuito de ganharem tempo, somente chegaram a um acordo quanto à formação de um Governo de Unidade, enquanto a Corte Suprema e o Congresso Nacional decidam sobre o retorno de Zelaya. Mas não há data prevista para isso. Sob a supervisão da OEA será instalada uma Comissão de Verificação, a qual disporá de um semestre para acompanhamento do texto acordado. A tardia decisão, de ambas as partes, não evitam que as eleições presidenciais, marcadas para o dia 29 deste mês, na opinião de alguns críticos, restem simplesmente perdidas. Precedidas, como vemos, de um período tumultuado, de truculências e repressões, além do voto não ser obrigatório nesse país, portanto não havendo clima para sua efetivação em paz, com a população dividida e em pé de revolta, presume-se baixa no nível de participação eleitoral, para qual o boicote, parece ser, segundo os organizadores da resistência, a palavra de ordem mais consentânea. Nessa circunstância o pleito será um mero formalismo político que um exercício de democracia.
Não obstante contar com a cumplicidade norte-americana, da Colômbia, Israel e Peru, além da generosidade da ONU e OEA, Honduras logo se transformará numa ilha política. Esse isolamento será, sem dúvida, prejudicial ao desenvolvimento de sua economia, bastante carente de recursos e do apoio externo. Não estava nas previsões de seus articuladores a reação negativa de diversos países, praticamente o primeiro golpe de estado no Continente, desse estilo, a sofrer algum tipo de repúdio, de todo o mundo. A opção que terá esse governo de fato, ou provisoriamente unificado, é a aceleração de sua dependência aos caprichos estadunidenses e impérios adjacentes. No âmbito interno haverá, em conseqüência, a definição das classes sociais em dois distintos blocos: forças antidemocráticas e conservadoras, mantidas pelo empresariado, facções políticas e setores midiáticos, aqueles pouco comprometidos com a soberania da nação. Elas continuarão monoliticamente unidas. O outro lado se constituirá dos agrupamentos populares, democráticos, progressistas, contrários ao imperialismo e capitalismo selvagem. Não se trata, a rigor, de uma previsão ecatológica, porém os fatos evidenciam essa iminente situação. Legitimadas ou não, a estas alturas dos acontecimentos o novo mandatário presidirá um povo, pelo que tem provado já começa a trilhar por um caminho, aliás sem volta, de alto nível de conscientização.
A preferência por esse futuro, entretanto, traz uma reflexão muito profunda e tem servido de alerta às lideranças democráticas latino-americanas, as quais já pensam criar organismos de defesa, de precaução contra novas aventuras de golpe de estado. Toda essa celeuma nada mais é que o medo da presença, ali, da Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba) e do Tratado de Comércio dos Povos (TCP). O posicionamento brasileiro, de descolonização continental, pelo menos nessa questão, teria receado os golpistas, amedrontados com resultados eleitorais, possivelmente adversos. Quaisquer que sejam eles a capacidade de mobilização das massas crescerá, a olhos vistos.
Jornalista




















