de Inocêncio Nóbrega *
Aconteceu, numa das edições do programa “Mais Você”, da apresentadora Ana Maria Braga, relativamente ao Dia da Secretária, mês de outubro, a informação acerca da primeira mulher a escrever, de público, utilizando-se de uma invenção atribuída ao norte-americano Chistopher Lathan Sholes, veiculada a 1867. Trata-se de um Senador, que por duas legislaturas, representou o estado de Wisconsin. A exibição daquela secretária, segundo a comunicadora da Rede Globo, teria causado estranheza, para não dizermos escândalo, àquela época.
A história do invento da máquina de escrever é bem outra, ela teve origem no Brasil, precisamente no nordeste, nos idos de 1823. Naquele ano, o Governo da Província da Parahyba abre edital a aprendizes da arte tipográfica, a fim de atuarem numa tipografia moderna, que acabara de importar da Inglaterra. Francisco João Azevedo preenche as exigidas condições e é logo contratado para compor e imprimir a “Gazeta do Governo da Parahyba do Norte”, edição inicial que surgiu em fevereiro de 1826. Para auxiliá-lo na singular tarefa levou consigo seus filhos, os quais mais tarde também se afinam à arte. Um deles, ao mesmo tempo vocacionava-se ao serviço sacerdotal, ordenando-se, pelo Seminário de Olinda, em 1838.
Maçom, professor, musicista, mecânico, religioso, porém acima dessas qualidades jenuflexava-se diante do altar da Pátria. Assim era o Padre Francisco João de Azevedo Júnior, nascido na Paraíba. A ele cabe, a bem da verdade, a primazia de idealizar a primeira máquina de escrever do planeta, observando a mecânica de um piano. Seu raciocínio partiu do funcionamento de cada tecla do órgão, que ao ser comprimida emitia som próprio, e o conjunto deles uma melodia. No caso do invento, imprimir-se-ia, com teclas de madeira, uma letra, e na sequência de toques uma sílaba, uma palavra. Tinha a forma de uma máquina de costura de gabinete, aparentando, também, um piano.
Sua extraordinária invenção chegou a ser exposta no Recife, participando mais tarde da Exposição Nacional do Rio de Janeiro, em dezembro de 1861, merecendo uma medalha de ouro do Imperador Pedro II. Esperava levar sua criação ao conhecimento do mundo, através de duas outras exposições, de Londres e da cidade de Filadélfia. Doente, logo diante das dificuldades de conduzir as peças até esses países ingenuamente entregou os detalhes e esquema da idéia a um tal de John Pratt, que se ofereceu para conduzi-las, cujos originais só lhe foram devolvidos muito depois, faltando, todavia, os principais
componentes. Puro ato de pirataria, praticado pelos galegos
norte-americanos. Sem pensar duas vezes a E. Remington & Sons passou a produzí-la, comercialmente.
Mas se explica o desconhecimento dos brasileiros quanto a seus grandes valores. Nenhum Secretário da Educação ou de Cultura deste estado nordestino, por displicência e irresponsabilidade, teve interesse em divulgar o nome e a invenção desse insígne patriota, que, durante sua vida, nunca deixou de oferecer sua obra ao Brasil e à humanidade. Realmente, sobre ela se desenvolveu a cibernética, a informática. O Padre João de Azevedo morreu solitário, em 1880, decepcionado com o descaso dos governantes de então, algo tão comum ainda hoje. A injustiça, em torno desse fato, ainda que
involuntariamente perpetrada, deve, portanto, sofrer a necessária reparação.
* Jornalista -PB























