Nesta quarta-feira de calor intenso, mais de 1600 pessoas se refrescaram na Cachoeira do Paraíso, em Iguape, que desde o último domingo teve o acesso restrito por uma decisão judicial. O local fica no núcleo do Itinguçu, que integra a Estação Ecológica Jureia-Itatins. Além disso, cerca de 4 mil visitantes são aguardados para o dia dois de janeiro, data pico da temporada no local. Entre os visitantes, turistas que passam a semana do réveillon no Litoral Sul desconheciam a decisão.

Cachoeira do Paraiso - Juréia - Iguape/SP
Morador de Sorocaba (SP), o professor de história Diogo Comitre, de 24 anos, aproveitou a semana em Peruíbe para conhecer a cachoeira e elogiou a exploração sustentável do local. Entretanto, ele lembra que impacto zero não existe. “Até a gordura do nosso corpo gera impacto ambiental”, conta o professor, que já atuou como monitor do meio ambiente. Na tarde desta quarta-feira (30), dois monitores orientavam os banhistas sobre as práticas ecologicamente corretas. Na entrada para a trilha de 500 metros que leva a cachoeira, um guarda-parque dava as orientações e proibia a entrada de latinhas, cigarros ou alimentos.
“Não pode entrar nada que é descartável”, explicou o monitor ambiental João Paulo Barbosa de Souza, de 26 anos, que há dois anos presta serviço à Fundação Florestal, órgão do governo do Estado, através de uma empresa terceirizada. No entanto, Souza admite que algumas pessoas tentam burlar as regras e acabam sujando o espaço. “Hoje eu recolhi uma fralda descartável que deixaram na pedra, mas isso é raro, cigarro também é raro. O mais comum é as pessoas perderem um dos chinelos no rio e acabarem abandonando o outro pé”, disse o monitor, que todos os dias faz uma varredura na área recolhendo os objetos deixados.
Nascido na comunidade, Souza fez curso de primeiros-socorros e recebe salário de R$ 600 para atuar como guarda-vidas na cachoeira. Ele lamenta que haja restrição no número de visitantes ao local e conta que fora o seu salário, o sustento de toda a sua família vem da venda de lanches aos turistas. “O povo daqui depende disso. Eles ganham na temporada para viver o resto do ano. Minha mãe trabalha como barraca de lanche desde 1986 quando isso aqui virou Estação Ecologia e não pudemos mais plantar. Antes tinha plantação de banana. Aqui havia 18 mi pés”, conta o monitor Reginaldo Queiros, de 25 anos, que trabalha no local há cinco anos.
Ao longo desse tempo, Queiros afirma que pode acompanhar a conscientização ecológica das pessoas. “Nossa, melhorou 100%, antes tinha gente que queria vir aqui fazer churrasco, subir com isopor. Agora a gente recolhe só papel de bala de vez em quando”, conta. Souza completa: “Depois da lei anti-fumo, ficou mais fácil de controlar os fumantes também”. Engajado, o comerciante Orlando Vitor de Lima, de 29 anos, estava ansioso por participar de uma reunião com a Fundação Florestal que aconteceria minutos depois, para acertar os detalhes das visitas monitoradas que seriam implantadas a partir de quinta-feira.
“Antes pingar do que secar. Se isso aqui fechar de vez, todo mundo morre de fome”, explica Lima, que junto com o pai e 11 irmãos trabalha em uma das lanchonetes na entrada da trilha. “Eu nasci daqui e vivia da roça, daí veio lei da Estação Ecológica e a gente não pode mais planta. Passamos a explorar o turismo e agora querem acabar com isso. Falam em lei, mas para a gente aqui não tem lei. Não tem luz, esgoto, telefone”, relata o comerciante, explicando que três dos seus irmãos vão trabalhar como monitores voluntários no plano do Governo do Estado de tentar manter a visitação.
Coordenadora do Núcleo Itinguçu, Jeannette Vieira Geeneen, coordenou a reunião entre a Fundação Florestal, Polícia Militar Ambiental e comunidade. “Estamos nos adequando, a partir de amanhã haverá monitores em toda a trilha e vamos fazer colocar um vídeo sobre a estação para as pessoas assistirem antes de visitar a cachoeira”. Segundo Jeannette, a exibição do vídeo é uma maneira de tentar triar a visitação.
Em nota, a Fundação Florestal informou que realiza o controle dos visitantes através da portaria da estação e também através da catraca que dá acesso a cachoeira. Sobre a portaria que ordena o uso público, detalhada na matéria veiculada ontem pelo Estado, a nota afirma “o documento foi assinado hoje (30) pelo diretor-executivo da Fundação Florestal, José Amaral Wagner Neto, e enviado para a administração da Estação Ecológica”.
(Rejane Lima – Agência Estado)




















