Governo de SP já definiu empresa que construirá as comportas do Valo Grande

Medida paliativa ignora demais aspectos do problema do Valo Grande

Iguape – Quatro empresas foram habilitadas e a empresa DP Barros Arquitetura e Construção Ltda. venceu a concorrência para realização das obras civis para instalação do sistema eletromecânico das comportas, recuperação das estruturas de concreto, recuperação das margens do Valo e Urbanização da Barragem do Valo Grande. A obra, que será supervisionada pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE), da Secretaria de Obras e Saneamento, custará R$ 8.613.895,07. Falta, apenas, a assinatura do contrato para que seja iniciada.

Construída em 1991, a obra aguardava conclusão pelo DAEE, desde a ocasião de sua entrega à população. Dezoito anos depois, o Governo de SP retoma a obra com a perspectiva de concluí-la. A instalação das comportas, até mesmo em razão da demora do Governo do Estado em terminar a obra, passou a ser antiga reivindicação da população de Iguape, Ilha Comprida e Cananéia. Acredita-se que  as comportas permitirão a recuperação do ecossistema do Mar Pequeno e, consequentemente, reativação do turismo de pesca esportiva na região lagunar e o reaquecimento da economia local.

Controvérsias

O assunto divide ambientalistas, pois o antigo curso do Rio Ribeira está assoreado desde o início do Valo Grande até sua faz, em Barra do Ribeira, na Juréia. Ou seja: para evitar inundações  em razão do assoreamento, é previsto que as comportas sejam abertas com frequencia e tal fato não possibilitará a estabilização da salinidade das águas do Estuário do Mar Pequeno. Espera, assim, a continuidade dos prejuizos ambientais e sócio-econômicos da região do Lagamar, pois não há um plano geral para recuperação ambiental da região do baixo Rio Ribeira que contemple dragagens e regularização do antigo curso.

O Valo Grande foi aberto em meados do século XIX visando encurtar o caminho para a chegada do arroz ao porto (Iguape era grande produtor na época).

Por estrada, a produção tinha que percorrer 3 quilômetros entre os portos. Os agricultores mandaram abrir um canal com a largura de 4,4 metros, que seria suficiente para as canoas levassem o arroz do Porto do Ribeira ao Porto Grande  com as sacas de arroz. Com a constante erosão, o canal atingiu 300 metros, comprometendo a salinidade do Lagamar do Mar Pequeno (Mar Pequeno de Iguape), tornou instável a sedimentação da região de costa entre a Juréia e Ilha Comprida, assoreou o rio Ribeira e o Mar Pequeno e reduziu quase a zero a atividade portuária em Iguape, além de incalculável prejuizo à vida marinha do estuário.

“Câncer de Iguape”

Os habitantes mais antigos do município de Iguape consideram o Valo Grande como o “câncer de Iguape”, pois, tal como um tumor extremamente maligno, após sua construção a localidade foi drasticamente conduzida ao declínio sócio-econômico e ambiental.

Maior catástrofe ambiental do século XIX

Canal construído desastradamente pelo homem há mais de um século, que a natureza se incumbiu de alargar, determinou a morte dos 18 quilômetros finais do Rio Ribeira do Iguape, a partir da barra onde as águas do rio se juntam às do Oceano Atlântico, é exemplo clássico da ignorância ambiental de inícios do século 19, quando não se tinha idéia da real força das águas e de seu potencial de erosão.

Em 1825, época em que o Vale do Ribeira se destacava por sua rica produção de arroz e por seus dois portos – um fluvial, o Porto do Ribeira, que recebia o produto da região, e um marítimo, o Porto de Iguape, de exportação – para encurtar a distância de 3 quilômetros entre os dois portos, que obrigava ao transporte por estrada, em carroças, surgiu a idéia de se abrir um canal para facilitar o escoamento da produção. Com autorização do imperador d. Pedro I construiu-se um escoadouro de apenas 4,4 metros de largura, mas a força das águas, na busca do caminho mais curto para o mar, foi erodindo as margens arenosas, tanto que o Porto do Iguape foi assoreado – causando encalhe de navios – e se tornou inútil. Em 1879, os moradores pediram ao imperador (já d. Pedro II) o fechamento do canal. É que a cidade, que fora rica e próspera – com sua intensa atividade cultural, seis jornais, casas de teatro e de espetáculos que apresentavam importantes companhias estrangeiras -, se tornara uma ilha, cercada pelo Mar Pequeno, o Rio Ribeira e o Valo Grande, já com 200 metros de largura. Quarteirões inteiros, inclusive o cemitério da cidade, haviam sido destruídos. “A população fugia em pânico e as famílias mais tradicionais deixaram a cidade às pressas” – como descreveu o historiador José Paulo Orsini de Carvalho.

Demorou um século, e muitos estragos, para que as autoridades do governo do Estado de São Paulo, depois de intensa cobrança resolvessem fechar o canal, construindo, no entanto, uma barragem de terra e pedras que durou menos de dez anos. Depois que as enchentes derrubaram de vez o barramento, o governo do Estado iniciou a construção de uma barragem com comportas, para controle da vazão. O projeto possibilitaria a abertura das comportas durante as cheias, regulando a cota do Ribeira. No meio da barragem estaria uma eclusa, para a passagem de barcos. Mas a obra parou em 1992, por alegada “falta de recursos”.

Desde 1994, com a queda final do que restava, como barragem de contenção, o Valo Grande alargou de vez e mais da metade das águas do rio passou a desembocar no Mar Pequeno, criando uma segunda foz. Assim, um dos mais importantes rios do Estado, antes caudaloso e repleto de peixes, está ficando quase sem vida. Na foz (original) do Ribeira, o que era um caudal com quase mil metros de largura, “empurrando fortemente suas águas mar adentro, se transformou em um canal estreito e raso, pontilhado por bancos de areia” – conforme constata matéria do repórter José Maria Tomazela, publicada no Estado, no dia 25 de dezembro/2003. Recebendo a invasão das águas do mar, e sem forças para arrastar os sedimentos por ela trazidos, o Rio Ribeira vai se tornando cada vez mais assoreado, prevendo os ambientalistas o fechamento total da barra e a transformação desse trecho em manancial de águas paradas.

Essa situação tem causado um verdadeiro desastre ecológico, e de grandes proporções, no complexo estuarino lagunar de Iguape-Cananéia, um dos maiores berçários ictiológicos e de espécies do Planeta. Como afirma o ex-prefeito de Iguape, João Cabral Muniz, “Além de causar a morte do Ribeira Velho (como é chamada a parte do rio posterior ao canal), o despejo de água doce no estuário acabou com os peixes, camarões, ostras, caranguejos e siris”, complementando “As ações para o Valo Grande, em Iguape, precisam ser amplas, que contemplem os diversos aspectos ambientais e a população aqui residente. Não podemos nos esquecer das pessoas!”.

Sem dúvida aquilo que foi um grande erro, resultado da ignorância, no início do século 19, neste início de século 21 é um clamoroso descaso – com pleno conhecimento de causa.

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2 respostas para Governo de SP já definiu empresa que construirá as comportas do Valo Grande

  1. Luis Augusto tube

    Como cidadão iguapense e ja beirando os meus sessenta anos de idade, vamos todos solicitar logo a assinatura deste contrato, e ver o inicio das obras o quanto antes.
    estudos ja foram feitos, e a população de Iguape, aguarda ansiosamente estas obras.
    Que o poder público local, e toda a população, fique vigilante, para que oportunistas do mal, não começem a ficar tecendo conjecturas, no sentido de dificultar o início das obras.

  2. Paulo Celso Pires

    Muito esclarecedora a matéria.
    Mais uma intervensão do homem em que não se sabe quais serão as consequencias.
    Peço encarecidamente ao Jormal ou aos leitores que tenham conhecimento do assunto, que comentem mais sobre o fato, uma vez que a história do Valo Grande parece uma jogatina de Xadrez entre o homem e Natureza, onde o homem constantemente leva “Xeques”, e chegará o dia em que a natureza dará o terrivel “Xeque Mate”.

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