Golpismo

Opinião, de Inocêncio Nóbrega*

Proscrever mandatos nacionais, ainda que legitimamente eleitos, faz parte da cultura da África e das Américas. Tais experiências nos levam à enganosa tese de que tal ocorre, entre outras razões, por falta de solidez democrática. Entretanto, o histórico de vitórias desmente essa versão, a começar pelos interesses econômicos em jogo no mundo capitalista, parceiro das hegemonias imperialistas nessas regiões.

Oligarquias locais conflitam-se com as aspirações dos povos e atuam em combinação com o Departamento de Estado dos EUA e a Cia. De lá saem táticas, cuidadosamente estudadas, conquanto os privilégios das classes dominantes sejam preservados. Em Honduras, onde Zelaya foi vencido, apenas 13 famílias são donas da economia do país. De regra, os esperados resultados acontecem sob uma mínima margem de erros, pouco dependendo de momentos circunstanciais. Basta enquadrar o governo de natureza progressista. Detectados alguns pontos de ebulição social, segue-se a montagem astuta da ação. À grande mídia cabe artificializar um clima de colisão entre governantes e governados. O Poder Legislativo é o segundo elemento de importância, nessa cena bufa e de mentira, que faz rir a própria história, ao manipular Direitos Internacionais e Constitucionais, com efeitos de trapalhadas. Por fim, conquistar a maioria da oficialidade, e, até, dividi-la, pois a ela se reserva o último tiro na ingenuidade das vítimas.

Por vezes, o Brasil experimentou algumas quarteladas, na sua vida republicana, sempre de inspirações domésticas. A de 1964, na verdade, contou com respaldos estratégicos e militares forâneos. Bem conhecida a agitação dos Cabos e Marinheiros, contra o presidente Jango, liderada pelo cabo Anselmo, pago pela Cia, para esse fim. Nos idos tempos tivemos, nas Américas, semelhantes situações em cadeia, as quais se fizeram acompanhar de sucessivas intervenções golpistas, ensejando prolongadas ditaduras. A tradição, também muda. Os meios de comunicação continuam atrelados aos sistemas neoliberais, mas nossas Forças Armadas vêm alcançando alto nível de maturidade democrática. Foi assim na tentativa de fenestrar os governos Chavez e Rafael Correa, e recentemente no Paraguai. Aí, o disparo fatal veio pelo viés parlamentar, atiçado pela empresa Monsanto e grupos do gênero, porém poderá ser revertido pela Corte Suprema. Àquelas está entregue a garantia de normalidade institucional da Grande Pátria, a América Latina e Caribe. Adidos militares estrangeiros já não conseguem impor a doutrina intervencionista, como habituavam fazê-lo. A reação, em bloco, das nações irmãs, por isso não contavam. Aos poucos, o golpismo vai ficando para trás.

* Jornalista – inocnf@gmail.com

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