Seis reais a mais em Iguape

Negócios, de Nelson Jorge Leite *

Santos nos anos 40 era o balneário da classe A e B. Bons tempos os do café e dos cassinos. Essas classes não só frequentaram Santos. Construíram Santos. Aquele paredão de prédios, os bairros próximos a orla, o seu jardim, e até um pouco, S.Vicente. Esta aos poucos foi se transformando em cidade de aposentados classe C. Gente trabalhadora que comprou sua casinha no litoral e assim passar uns dias melhores do que na capital. 

Quando a jogatina foi proibida por Getúlio e o café despencou por questões internacionais, Santos perdeu a graça. Isto é , perdeu a afluência das classes A e B que então começaram a se dirigir para o Guarujá. E construíram o Guarujá. Nos anos 60 a 80 tudo em Guarujá demonstrava sofisticação e bom gosto. Grana, muita grana. Hoje é um drama. Horror. Violência, sujeira, horror. As classes A e B estão na Riviera ou em Miami.

Naquela época , a Praia Grande e sua orla vivia a míngua e pra si mesma. Aos poucos passou a ser destino de ônibus de farofeiros, classe D. Sindicatos de trabalhadores a descobriram e fizeram suas hospedarias. Cidade Ocian foi uma delas, uma boa ideia que se transformou num Deus me guarde, hoje recuperada como toda a Praia Grande que mudou o seu destino, sua marca e as características de turismo, favorecendo, incentivando o turismo de temporadas classe C , essa classe que aos poucos iria se transformar na classe de trabalhadores instruídos e razoavelmente pagos. Especialmente dos ramos metal\mecânico, químico, automobilístico etc e tal além de professores e pequenos comerciantes.

O turismo bate e volta , típico de classe d e c , mais d, foi aos poucos se deslocando para Mongaguá, Vila Caiçara, Itanhaem e Peruíbe. Alguns sindicatos acompanharam esse movimento e resolveram construir também suas hospedarias, pousadas e escolheram essas cidades. Durante um bom tempo Itanhaem foi o sonho de férias e de passeio para um bom grupo de trabalhadores sindicalizados e não era fácil fazer reservas em suas pousadas devido a procura. Pois bem, aos poucos essas cidades foram verificando que aquele turismo bate e volta, de ônibus fretado, kombis dormitórios etc não traziam absolutamente nada como também estavam afastando o turismo dos trabalhadores sindicalizados. Aquele turismo bate e volta usava e malbarateava a estrutura da cidade, pronto socorro, guarda-vidas, limpeza publica,  policia e nada deixavam. Na verdade desconstruíam a imagem da cidade muitas vezes construída e bem construída por séculos como era o caso de Itanhaem e Peruíbe. O comercio local, sempre pensando em seu próprio bolso, foi contra o novo reposicionamento que elas então buscavam e implantavam. Reposicionamento baseado em melhoria na infra-estrutura , no embelezamento da cidade, na sua organização e limpeza e na cobrança dura permanente dos impostos bem como na contenção e punição exemplar de vândalos que ousavam destruir o que as prefeituras ou famílias construíam . Pavimentação, calçadões, sinalização de trânsito e uma boa relação com as agências de turismo fizeram o resto.  A regularização fiscal de toda a cidade inclusive dos seus pequenos negócios também veio e contribuiu mostrando que a coisa seria permanente e pra valer. Não foi fácil. Uma boa parte da população era contra. E o ditado “cidade pequena, inferno grande” parecia ter a sua exata tradução naqueles tempos nessas cidades. Essas pessoas se sentiam ameaçadas e não conseguiam ou não queriam entender que todos iriam se beneficiar como de fato aconteceu. Ônibus de turismo bate e volta foram proibidos de frequentarem suas praias. Pois bem, essas medidas  atraíram um novo tipo de turismo, turismo de classe C+ , classe B e até A. Condomínios de bom padrão, casas de bom nível , hotéis, restaurantes enfim uma vida própria começou a surgir nessas cidades. Elas apesar de centenárias revificaram e hoje são exemplos no litoral santista.

Uma boa parte daquele turismo proibido nas cidades citadas foi encontrar guarida em Ilha Comprida e Iguape. Aos poucos , especialmente Iguape que era destino turístico regional foi perdendo seu espaço, sendo deslocada, visto que os turistas da região começaram a preferir Peruíbe e Itanhaem e também porque se sentiam incomodados com a onda inconveniente do turismo bate e volta de ônibus fretados e o seu show de horror e desrespeito para com a cidade e seus habitantes. Na verdade, em Iguape acontecia a mesma coisa que havia acontecido em Peruibe e Itanhaem : tudo se deteriorou. Restaurantes foram fechados, a infra estrutura dilapidada, a prefeitura empobrecida, e os hotéis, pousadas etc morreram. Iguape e Ilha Comprida capturavam essa classe D e um pouco da C e por muitos anos acharam que era um bom negócio. A Ilha Comprida partiu para vender terrenos sem uma estratégia de desenvolvimento. Pura exploração, especulação dos incautos da classe D e C na periferia de São Paulo ou ainda do ABC paulista. Alguma coisa de Sorocaba e Itapetininga também. Resultado, a compra de terrenos feita por impulso, e muitas vezes o comprador   convencido ingenuamente por vendedores\corretores desonestos e  sem analisar qual era o terreno, onde ele estava ( terrenos foram vendidos dentro do mar!!!!) e se poderia suportar as prestações e os impostos e posteriormente a construção de uma casinha fez que de um lado o comprador se sentisse enganado, ludibriado e roubado assim se desinteressando por completo  e do outro a Ilha perdendo sua principal vantagem e beneficio ao publico como polo turístico, que era ter residências para famílias, condomínios e assim bons hotéis , pousadas e bons  restaurantes etc. Como se não bastassem essas perdas, a pior e que perpetua foi a imagem de esperteza, desonestidade , de um lugar muito pouco confiável para se passear ou construir. Aos poucos e com muita dificuldade a Ilha está tentando desfazer essa imagem, mas ainda está difícil.

Iguape nesse tempo ficou congelada e aderente à imagem ruim que a Ilha adquiriu. Sem investimento em infra-estrutura, com politicas ambientalistas míopes que transformaram o Rocio num depósito de pessoas, o assoreamento do Valo e tudo o que sabemos , o comercio mingua, as pousadas e hotéis são horrorosos, os restaurantes não existem. Claro está que o destino da Ilha e de Iguape são confluentes. Um está atrelado ao outro. E claro me parece também que não há como não ser o turismo. Não para a pessoas predadoras da classe D ou de qualquer outra classe que queira fazer aqui  o que não faz em sua própria cidade ou para o turismo bate e volta. Não para vândalos ou cidadãos que por estarem ganhando “seis reais a mais” se julgam acima de qualquer norma civilizada  de convivência e invadem nossos ouvidos com suas músicas de gosto duvidoso e outras extravagâncias como urinar em nossas ruas , ou ainda para o turista que  vem nos visitar como se fôssemos animais de zoológico, excêntricos, esquisitos etc e tal. Não. Isto também acontecia em Peruíbe, em Itanhaém e a cidade conseguiu selecionar e educar seus visitantes , monitorando-os , respeitando-os e aplicando a lei. Porem antes de ser uma cidade para turistas , Iguape deve ser uma cidade para os seus habitantes. Uma cidade limpa, com calçadas, sem vândalos, com jardins, iluminada e arborizada. Com bairros distantes ou próximos cuidados com zelo e que as pessoas possam viver com dignidade e sem violência. As pessoas tenham escola e hospital ou pelo menos pronto socorros com profissionais interessados em seus problemas e não apenas cumprindo plantões. A cidade tem que ter sua lição de casa bem feita. E isso tem que ser um esforço coletivo. A Prefeitura sozinha não conseguirá fazê-lo. As escolas, as sociedades amigos de bairro, as maçonarias, a Câmara dos Vereadores,  os clubes de servir , o ministério publico, o judiciário, a oab etc e tal tem que confluir para esse esforço sem o ranço dessa politica mesquinha e desinformada, menor  que tanto tem atrasado Iguape. Não é querer muito , não. E ao contrário do que pensam, a prefeitura de Iguape tem todos os recursos legais e ferramentas para isso. E tem  dinheiro também. Na verdade sempre teve. Agora tem mais devido ao pré-sal . O que não teve quase sempre foi gestão. E o que sobrou foi compadrio, incompetência e preguiça. Vamos ver se agora muda.

Em próxima oportunidade conversaremos sobre turismo e marcas.

Njl\novembro 2012

* Nelson Jorge Leite é escritor e conselheiro de empresas. Consultor de empresas Pirelli, Rede Globo- Net , Hering, Rhodia, Camargo Correa, Cativa, Altenburg, Rovitex, Tex-Cotton, Lorenzeti, Papaiz, Ferrero-Rocher, Raphaella Booz, Coca-Cola e Kaiser etc. Especializou-se em desenvolvimento de mercados. Possui formação em Economia pela FEA/USP e em Marketing pela ESPM e Pós-graduação em nível de Especialização em MKT de Varejo pela Michigan University – Detroit USA
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5 Respostas para “Seis reais a mais em Iguape

  1. Assim como a maldade e as coisas ruins proliferam, disseminam-se; bom seria que conhecimentos e energias de uma mente iluminada como a do autor deste texto, contagiasse os governantes, autoridades locais e a mente dos cidadãos para mudar o rumo desta cidade e transformá-la numa jóia do Vale, para que esta deixe de ser quase que apenas um acesso às praias de Ilha Comprida.

  2. Parabéns pelo texto realmente é a realidade deste mundo mesquinho a ganancia do ser humano em depredar, destruir o belo pelo simples prazer
    de deixar sua marca em locais que passam sem o minimo respeito.

  3. João Cabral Muniz

    Parabéns Dr Nelson Leite, você pensa e escreve com muita propriedade. A leitura que faz de Iguape e Região é correta e legítima, pois aponta os erros passados e atuais, bem como destaca o nosso potencial com isenção de ânimos, sem picuinhas políticas, sem pensar em promoção pessoal, e o principal: sem saudosismo..
    Me alegro mais ainda por ser seu amigo e por você ser um proprietário
    de imóveis aqui em Iguape, e frequentar este torrão a mais de quarenta anos. Grande abraço. Aguardamos mais matérias…

  4. Achei muito interessante o texto. Concordo plenamente com os argumentos e espero ansiosa pela mudança de perspectiva dos investimentos políticos, ambientais e turísticos em Iguape. Local aonde temos sem dúvida o melhor carnaval de São Paulo.Uma natureza exuberante , que podemos inclusive vender para o exterior, atraindo turistas estrangeiros, fácil, fácil. Desde que tenhamos pousadas e restaurantes a altura.

  5. Vi isso acontecer e ate “cai” neste cvonto do TERRENO na ILHA,mas o tempo passou vi a balsa os “CARNêS” fantasmas ,pois cobravam e sumiam com o dinheiro” que faria a construção da “PONTE”e vi aponte nascer depois de décadas com obras paradas e também a degradação da praia com quiosques que invadem ela e de esgoto do lado do “””PARQUE “”””de diversões ,que insistem e colocar la e que jogam seus “dejetos” no canal(quiosque do japones).sera que isso vai mudar agora ………!!!!!pois na politica de décadas a “”COISA” não mudou ,e tenho ate parentes vivendo na ilha ao qual fui o “culpado” de estarem vivendo la e pagando os impostos e nao recebendo o mínimo devolta ………….!!!!!!!!!!.

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