A marca Iguape e o Turismo

Negócios, de Nelson Jorge Leite *

Essa era a marca do leite condensado que sua mãe comprava quando ela era criança. Quando se banhava , o sabonete era esse, dessa marca, que sua mãe colocava no banheiro. Ela se lembra bem da sua mãe ralhando, da vida dura que tinham e dos melhores momentos da sua vida. Se parar pra se lembrar melhor, se lembrará que muitas vezes sua mãe fazia sacrifícios para comprar essas marcas. Mas comprava, porque elas eram as melhores, as mais confiáveis e na defesa da família, sua mãe não tinha dúvidas, sempre fazia a melhor opção. No entanto, por vezes , não dava. Ela, então, comprava produtos (marcas) substitutos com reservas, com desconfiança. Assim que a vida melhorava , sua mãe voltava para as marcas de sempre, as mais confiáveis. Parecia que elas lhe confirmavam que as coisas estavam indo bem. Alguns anos depois, essa menina se tornou uma jovem cheia de opiniões e atitudes contrariando até mesmo muito do que sua mãe lhe recomendara. Afinal mãe e pai, às vezes, a gente acha, são apenas um quadro na parede. Depois , nos arrependemos. Mas nessa idade , as coisas mudam e, a gente acha, eles não entendem! Porem, quando ela foi morar sozinha e comprava um leite condensado, era da mesma marca que sua mãe comprava. O sabonete também e até o detergente. O primeiro creme que passou no rosto, para hidratação, e que lhe foi uma descoberta quando adolescente, ela ainda usa a mesma marca.

Não importa que outras marcas tenham vindo , mas aquelas marcas sempre lhe serão as preferidas e as procura em primeiro lugar. Ela, agora pouco mais velha e com seus filhos continua a mesma saga, cuidados e carinhos que sua mãe lhe cercou. E também as mesmas marcas.

Assim são as marcas! É a forma como nos relacionamos com produtos e serviços. Elas quando tem integridade, se modernizam e respeitam nossos sentimentos e bolso, nossa relação para com ela , ela se perpetua em nossas opções de compra mesmo que estejamos em situações diferentes.

Algumas, claro, não nos acompanham, ficam pelo caminho. Não resistiram à competição ou a nossa visão de mundo e estilos de vida que adquirimos. Evoluímos, elas não. Outras nem deveriam ter existido, tal sua falta de integridade, seu oportunismo, sua visão predatória seu desrespeito para conosco , seus consumidores.

Porem as marcas que persistem e nos acompanham e por vezes por várias gerações ( ex, leite condensado Moça, leite Ninho, creme Nívea , Maizena, sabonete Lux etc ) nos facilitam a vida e nossas opções de compra. Marcas existem para produtos e serviços. Cirque de Soleil é um serviço, serviço de entretenimento e é também uma marca. Uma poderosa marca. E apesar do relativo pouco tempo, àqueles adolescentes que se maravilharam com ele, já são casais jovens , estão tendo filhos e quando podem os levam ou assistem pela tv esse delicioso circo.

Pois bem, cidades também são assim. Tem marca. Seu nome é uma marca. Ubatuba , Recife, Salvador, São Paulo, Paraty, São Sebastião, Itapema, Peruibe, Iguape etc são nomes de cidades e marcas.

As pessoas são atraídas para essas cidades pelo o quê essas marcas tem de capacidade em induzi-las a pensar, imaginar um modo de vida, uma fruição cultural ou se maravilharem com sua natureza.

Por exemplo, quando pensamos em Salvador , o que nos vem a cabeça? O que nos lembramos? Compras, folclore, praias, beleza natural, cultura , comida típica, artesanato, o jeito do baiano de existir e ser, as histórias de Jorge Amado e seus personagens andando pela rua? E também sujeira, violência, preços caros? E Paraty? Provavelmente tudo isso e mais alguma coisa. Essa é a capacidade que essas cidades, essas marcas Salvador ou Paraty tem de induzir e atrair pessoas para visita-las e não só visita-la, mas pregar , isto é comentar sua visita para os seus amigos, para suas redes sociais, para sua família, o que viu e gostou como também o que não gostou, carreando mais visitantes e investimentos, mais simpatizantes , mais pessoas prometendo que um dia irão sim conhecer Salvador e Paraty ou ao contrário, passarão ao largo, preferirão outros destinos para suas férias . Isto, chama-se Turismo.

Segundo o World Travel and Tourism Council (WTTC) estima-se que o turismo é a maior indústria do mundo. Ele gera direta ou indiretamente mais de 200 milhões de empregos no mundo. Isto equivale a mais 10% da força de trabalho do mundo. Mamma mia!

O turismo , nos países desenvolvidos e em boa parte dos emergentes, é responsável por mais de 10% do Produto Interno Bruto (PIB). É uma força central nas suas economias e assim da economia mundial.

No Brasil, no entanto, o Turismo é tratado com pouco caso e desfaçatez a começar do Ministério do Turismo, onde se nomeia ministros sem nenhuma intimidade com o negócio turismo. Uma pobreza. Em São Paulo ninguém sabe quais são os planos da Secretaria de Turismo a não ser como cabide de empregos e escritório politico de apaniguados. Uma irresponsabilidade total.

Mas deixemos pra lá.

O desconhecimento sobre a maravilhosa indústria do Turismo faz com que alguns mitos surjam e se tornem muitas vezes congelantes, impeditivos de decisões, dotações orçamentárias ou planos sérios. Exemplos :

Mito: a maioria do turismo do mundo é internacional.
Realidade: O turismo do mundo é predominantemente doméstico, ele é responsável por 80% das viagens turísticas.
Mito: o turismo diz respeito apenas às atividades de lazer durante as férias.
Realidade: O turismo inclui todos os tipos de propósitos de visitas, incluindo trabalho, conferência e educação.
Mito: o turismo bom(economicamente falando) é o turismo por via aérea.
Realidade: a maioria e a frequência de voltas nas visitas de turismo se dão predominantemente por via terrestre , principalmente automóveis.

Turismo, como vemos e sabemos é uma experiência essencialmente “humana, desfrutada, esperada e lembrada por muitos como um dos momentos mais importantes das suas vidas”. “E o turista é o principal ator” de todo esse sistema de criação, distribuição de valor e riquezas.

Nossa cidade tem uma marca. A marca Iguape. E aí eu lhes pergunto, qual será a capacidade da marca Iguape de atrair visitantes? Quando um turista se lembra de Iguape, o que lhe virá à mente? O que ele prega ou comenta da sua visita a nossa cidade?

E aí não temos estatísticas, mas pela inexistência de foco, recursos, politicas e educação para essa atividade econômica, o Turismo, já sabemos que a marca Iguape tem baixa capacidade de atração, de competir com outras cidades turísticas . Não há milagre! Os comentários pós –visitas não devem ser de recomendação, salvo um ou outro que nos brinda com sua generosidade e ainda se encanta com nossa cidade.

Porem se pensarmos em Turismo como negócio, vemos que Iguape é um produto especial .

Ela é a marca/cidade dominante numa região de destinação turística. A destinação turística é a razão de ser do turismo com uma gama de lugares diferentes do cotidiano dos turistas por sua significação cultural, histórica ou pela sua paisagem. A atração para os visitantes tem potencial para energizar todo o sistema turístico e criar demanda de viagens , incluindo aí para a Ilha Comprida e não ao contrário ou pelo menos, complementares.

Iguape ,então, não é uma simples cidade ou um logradouro público. É uma marca que poderia ser forte, muito atrativa e com alta capacidade de inspirar, induzir estilos de vida, percepções de bem estar e felicidade bem diferentes do que as grandes cidades e até mesmo as cidades próximas inspiram.

Pessoas que para aqui vieram e fixaram residência, vieram com essa expectativa, com esse desejo. Muitas se arrependeram e saíram. Outras se encontram altamente insatisfeitas e se sentem com uma trava amarga de que foram enganadas mesmo tendo feito sua parte, investindo e construindo suas casas e o seu próprio negócio. É bem a história daquelas marcas ou produtos que não respeitam nossos sentimentos, nossos bolsos e melhor seria não terem existido. Porem , uma vida e uma casa não se trocam no supermercado!!

Por outro lado, ela é o fim da linha. Está no final de uma estrada e distante pelo menos 50 kms da principal rota de trânsito que é a Br o que não lhe é desvantagem , muito ao contrário, pois nas rotas de trânsito , o curto período da viagem até ao destino turístico , inclui também lugares intermediários que podem ser visitados no trajeto tornando o trânsito mais interessante e menos cansativo seja pela Br , ou ainda melhor, pela Baixada Santista. Porem , a serra do Cafezal do jeito que está ou a ligação entre a Manuel da Nóbrega e a Br quase que inviabilizam nossa boa vontade para com essas vias.

Outro ponto forte de Iguape é estar numa região geradora de visitantes podendo contar no Vale do Ribeira com mais de vinte cidades próximas e ainda por estar encostada à Grande São Paulo cujo potencial de visitas nem preciso mencionar.

É bom que entendamos também que turistas podem ser classificados em categorias de acordo com os propósitos da visita:

a) Lazer e recreação , incluindo férias, esportes e turismo cultural e a visita a amigos e parentes

b) Turismo de estudos e saúde. .

c) Profissional e de negócios , incluindo reuniões, conferências, missões, turismo de negócios e incentivos.

O primeiro salta aos nossos olhos , tal a sua visibilidade para nós. O segundo também seria possível se as ONGS e Institutos que desfrutam e obtém recursos e rendas do relativo bom nome da Mata Atlântica não se colocassem de costas ou de forma não amigável para com a cidade.

Então quanto ao Turismo , em Iguape, não lhe falta potencial ou vocação.

Essa cidade para várias gerações, minha entre elas, é um símbolo de reencontro, seja com a vida, com nossas histórias pessoais , com nossa auto – estima, nosso amor , enfim conosco mesmo.

Iguape é uma estrela dourada em nossos corações . E assim como marca ela poderia inspirar muitas pessoas que procuram o estado de espírito , o senso de bem estar e cultura que os casarões, a história da cidade, o folclore, a culinária e a beleza natural inspiram em decisões para o passeio, para o lazer, enfim para o turismo.

Eu estou ficando velho e acabo me emocionando , mas o que eu quero dizer também é que Iguape é uma marca que não está bem. Está mal. Muito mal. Em geral é de uma única visita turística.

Aqui o visitante nada encontra como oferta turística. Não há hotéis, nem restaurantes, nem passeios, nem trilhas, nem culinária, nem folclore, nem artesanato, nem beleza natural, nem pessoas com educação para o turismo. Não há nada. Porem , existe e de ótimo calibre a culinária caiçara (tão depreciada ultimamente) , os passeios, as trilhas (em que caminhos ou morros?), os casarões, a sua história (pouquíssimos jovens a conhecem e a valorizam), artesanato (a mesmíssima coisa), suas festas religiosas (barracas, produtos piratas e bêbados?) ou festas populares como o Carnaval , a Festa da Manjuba(maltratada, esquecida), sua música (onde tocar , quem valoriza as canções nativas?) etc e tal . Tudo existe e está aí adormecido, mal tratado, sem valorização , sem reconhecimento, sem imaginação mas quase pronto e gritando por socorro para se tornar oferta turística de boa qualidade.

Por outro lado nossa cidade, infelizmente, não tem muitas opções de desenvolvimento sócio econômico. Que outra indústria além do Turismo ,poderia aqui ser instalada? Que outra indústria teria tanta capacidade de criação de empregos em restaurantes, pousadas, hotéis, passeios, pavimentação, jardinagem, segurança, limpeza e higiene, serviços médicos, comunicação, passeios terrestres e aquáticos etc em relativo pouco tempo ?

Então , Iguape tem uma vocação natural para o turismo .

Iguape pode ser um paraíso para um determinado tipo de turista, pois o turismo como qualquer produto ou serviço , tem um consumidor adequado para ele. Curiosamente, o turista- foco para a oferta potencial de Iguape (culinária, história, folclore, artesanato etc) é de bom poder aquisitivo e com um nível de consumo cultural e experiencial acima da média da nossa população. Não é o mochileiro fumando o cigarrinho do capeta bem como não é aquele que vem urinar em nossas ruas ou exibir sua péssima educação ao nos fazer ouvir forçosamente , devido ao volume incandescente do som do carro, suas opções musicais. E talvez, nem o romeiro. Aparecida com uma tremenda basílica e nome nacional de devoção é uma cidade acanhada , com um comércio miserável, hotelaria e restaurantes inexistentes, equilibrando-se para sobreviver. Milhões de romeiros nunca trouxeram desenvolvimento para ela. Bem ao contrário de Nova Trento em Sta Catarina, uma cidade de romeiros, porem bem cuidada com restaurantes e uma hotelaria de causar inveja para Iguape ou Aparecida e o segredo foi identificar um foco ampliado, isto é, ir além do romeiro e a prática da sua fé e devoções mas investigar, pesquisar e captar o seu aspiracional . E aí identificou-se que o romeiro queria conforto e bom atendimento para dormir, para tomar banho e se cuidar. Queria segurança para trazer seus pais e filhos. Queria comida boa e com preços justos. E queria lugares pitorescos , interessantes para fruírem depois de rezarem. Tudo isso foi providenciado, e hoje Nova Trento é linda, limpa e um exemplo do turismo religioso.

No entanto, para se ter sucesso, a preocupação com Turismo precisa ser central para todas as lideranças e organizações da cidade. Da OAB às Sociedades Amigos de Bairro, escolas, maçonarias, associações de hotéis e pousadas, o pessoal das trilhas, dos passeios , da culinária, do folclore, das festas, Câmara dos Vereadores etc e tal e da Prefeitura, claro. Sozinha, a Prefeitura, não fará nada, como nunca fez e assim continuará.

Turismo não pode ser uma atividade tratada de forma lateral em Iguape ou pela politicazinha medíocre e mesquinha que em geral há na cidade. É quase sua estratégia de sobrevivência. E assim tem que ser tratada com responsabilidade e tecnicamente. E pra começar , há cursos de técnicos de turismo em Iguape, se não me engano e espero que não tenham sido liquidados por falta de alunos e professores. Ali poderá ser uma fonte de debate, análise , planos e colaborações.

Se está em jogo o futuro de uma cidade como Iguape e das suas novas gerações, meu Deus, eu não estou pedindo muito. Estou?

NJL/nov 2012.

Nelson Jorge Leite é escritor e conselheiro de empresas. Consultor de empresas Pirelli, Rede Globo- Net , Hering, Rhodia, Camargo Correa, Cativa, Altenburg, Rovitex, Tex-Cotton, Lorenzeti, Papaiz, Ferrero-Rocher, Raphaella Booz, Coca-Cola e Kaiser etc. Especializou-se em desenvolvimento de mercados. Possui formação em Economia pela FEA/USP e em Marketing pela ESPM e Pós-graduação em nível de Especialização em MKT de Varejo pela Michigan University – Detroit USA
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4 Respostas para “A marca Iguape e o Turismo

  1. Perfeito! Coloque este texto em praça pública p/ ver se os secretários de turismo se envergonham do que (não) fizeram estes anos todos!
    Sugestão de utilidade pública: Publique o nome do secretário e seu planejamento p/ os próximos 4 anos. Quero dizer METAS! Será que tem? Abraços e parabéns,

  2. Muito bem colocada a idéia de pessoas capazes administrar o turismo e de fato Iguape tem um potencial para o turismo. Ótima a reflexão e o exercício proposto.

  3. João Cabral Muniz

    Olá Nelson, mais uma matéria importante para o nosso município, um belo presente! Digo isso, não só pelo belo conteúdo, mas também pela oportunidade da publicação. Estamos iniciando um novo governo, momento em que as esperanças se renovam, as pessoas se revitalizam e apresentam ideias e disposição em colaborar. Você, de há muito é um grande colaborador. Este governo municipal que inicia deverá ter foco no desenvolvimento do turismo, buscando colaboradores, parceiros e profissionais para atuarem juntos com todos os seguimentos da nossa comunidade, e principalmente, sabendo, conhecendo todos os passos a serem dados. Você, com esta matéria, nos dá um norte e nos mostra o quanto a politicagem tem atrasado o nosso desenvolvimento. abç

  4. Jose Israel

    Ola Nelson Leite.
    Excelente artigo de a marca de Iguape e o turismo. Interessante o retrospectiva, que voce fez das marcas usadas em nossa infância, faltou o creme dental kolynos.
    Para nos, que somos turista, a cidade do Bom Jesus de Iguape é ainda motivo de caminhada, cavalgada, romaria, fe e depois lazer. E ainda tempos a oportunidade voltar ao passado, observando seus casarões históricos de construção do ano de 1780, com uma bela pracinha. Tudo isso não encontramos em Paraty em, Salvador.Como turista que sou também apoio a ídéa de divulgar o lado cultural, como a culinária, o folclore local e mais.,

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