Aspectos Históricos Ambientais


Na época do descobrimento do Brasil, com o intuito de expandir o comércio e procurar novas fontes para abastecer o mercado mundial, navegadores europeus intensificaram suas viagens em busca de terras novas e ricas que pudessem ser exploradas.

A visão corrente era de que os recursos naturais encontrados, principalmente nas exuberantes terras tropicais, estavam ali, prontos para serem aproveitados por quem tomasse posse da terra, sem a menor preocupação com o futuro da área que estivesse sendo conquistada.

No Brasil, a riqueza das regiões costeiras e o desafio de dominar o sertão povoado por índios e animais estranhos, mas repleto de madeiras nobres, ouro e pedras preciosas, à espera de serem extraídos e transformados em lucro, levaram os primeiros colonizadores a estabelecer postos de fortificação e aldeamentos em pontos da costa que pudessem garantir a exploração dos recursos. Durante os primeiros anos do séc. XVI os portugueses limitaram-se a fazer algumas viagens de reconhecimento pela costa. Mas, alarmados com as notícias de estrangeiros se estabelecendo em povoados e aldeamentos isolados e com as abordagens de embarcações piratas, decidiram enviar para cá uma esquadra chefiada por Martim Afonso de Souza e fixar bases mais eficientes.

O litoral sul do estado de São Paulo foi uma das primeiras áreas de atuação dos novos donos da terra. Percorrendo a costa, Martim Afonso foi tomando contato com pequenos povoados formados por degredados europeus, corsários e náufragos que viviam em harmonia com os índios. Em 1532, fundou oficialmente o povoado que já existia em São Vicente, desde 1510. Antes, tinha estado mais ao sul, chegando à região de Cananéia por volta de 1531. Ancorou seus navios na Ilha do Bom Abrigo e esteve na Ilha do Cardoso; em Itacuruçá colocou um marco de pedra com as armas de Portugal. Foi recebido por castelhanos e mestiços, entre os quais o “Ba charel de Cananéia” que tinham estabelecido um povoado conhecido como Maratayama (terra do mar) ou Vila dos Tupis, onde viviam cerca de 200 pessoas. O local era um antigo porto usado pelos índios, mas a falta de registros históricos deixa dúvidas quanto às datas e nomes dos fundadores. O Bacharel, que pode ter se chamado Cosme Fernandes Pessoa ou Duarte Peres, era um homem letrado, falava bem, pois teria sido formado em Coimbra e gozado de grande prestígio na Corte de Dom Manuel, antes de cair em desgraça e ser degredado. Junto com outros europeus como Francisco Chaves, que também vivia em Cananéia, facilitou a aproximação dos integrantes da armada de Martim Afonso com os índios, e a obtenção de informações sobre aquelas paragens.

As águas calmas e protegidas do Lagamar eram favoráveis para a atracação das embarcações e o preparo das expedições que partiam para o interior, subindo o rio Ribeira de Iguape, em busca de metais preciosos.

Pela localização, nas proximidades dos limites estabelecidos pelo Tratado de Tordesilhas, a região foi palco de disputas entre portugueses, espanhóis e até por piratas franceses, que lá desembarcavam para reabastecer seus navios ou comercializar produtos. Em Iguape, os conflitos eram frequentes, sendo sua fundação atribuída a um refugiado espanhol, Rui Garcia de Mosquera, que tinha estabelecido bom relacionamento com os tupiniquins.

Uma outra história, não comprovada, conta que em 1498, um grupo de espanhóis teria desembarcado na região e originado um pequeno povoado que chamaram de Iguape, nome dado pelos índios a plantas comuns no lugar. Alguns anos depois, um navio pirata francês teria atacado e incendiado a vila, destruindo assim todos os registros oficiais. Não se sabe se esses fatos realmente ocorreram, mas não restam dúvidas de que os primeiros anos da história de Iguape foram marcados pela presença espanhola.

O atual nome de Cananéia também parece ter origem bastante controvertida. Desde 1503, denominações como Rio de Cananer, Caniné, Canané, Canene, Canindé, figuram em mapas e documentos antigos. Podem ser corruptelas da expressão indígena Caé-ana-n-é que significa monte espesso, separado, mas pode ter sido dado por Américo Vespúcio, que ao percorrer a costa brasileira logo após o descobrimento, ia balizando os acidentes geográficos de acordo com as datas religiosas em que eram encontrados, como era costume na época. E Cananéia foi homenagem à celebração do encontro de Jesus com Canaã, a Terra da Promissão.

Na primeira metade do século XVII, Cananéia apresentava uma razoável produção agrícola e pesqueira, funcionando como entreposto para suprir as tropas portuguesas que lutavam contra os espanhóis na Bacia do Prata. Suas casas de farinha se espalhavam pelos arredores enquanto que Iguape era cada vez mais procurada por aventureiros em busca do ouro encontrado às margens dos rios. Em 1635 já existia a Casa da Oficina Real de Fundição de Ouro, a primeira Casa da Moeda do Brasil, hoje Museu Municipal de Iguape. À procura de riquezas, os colonizadores dirigiam-se para o interior do Vale do Ribeira. A notícia da descoberta de ouro na Serra de Paranapiacaba intensificou muito a navegação por toda a rede fluvial levando à formação de novos povoados, hoje cidades como Registro, Eldorado Paulista, Juquiá, Jacupiranga, Sete Barras.

Da costa até Xiririca, antigo nome de Eldorado, a navegação era feita facilmente pelo Rio Ribeira de Iguape e seus afluentes, cortando a vasta planície sedimentar. Dali para cima, o terreno acidentado e os rios em corredeiras dificultavam o transporte e as cargas passavam a ser levadas em canoas ou em lombo de burros. Muitos produtos entravam e saiam da região e o movimento marítimo era cada vez maior. Entre o Morro de São João e a embocadura do Mar Pequeno, foram sendo construídos estaleiros, os primeiros do Brasil, onde carpinteiros provenientes do Rio de Janeiro fabricavam embarcações de alto calado, famosas pela qualidade das madeiras e pelo capricho da mão de obra. Em 1782, Cananéia contava com 16 estaleiros e tinha fabricado mais de 200 embarcações que eram, inclusive, exportadas.

A pesca também não se restringia mais a garantir a subsistência da população . A caça às baleias era uma atividade em pleno desenvolvimento. Na Ilha do Bom Abrigo foi instalada uma armação onde eram obtidos produtos resultantes do benefíciamento, especialmente, de baleias francas. Eram atividades muito importantes para o desenvolvimento econômico na época, por ser o óleo obtido largamente empregado na calafetagem de embarcações, como liga para o reboco de construções e ainda como combustível para iluminação de casa e ruas.

Por volta de 1780 o ciclo do ouro tinha chegado ao fim e muitas famílias abandonaram a região. Porém, desde o princípio do século XVIII, os terrenos alagadiços do Vale do Ribeira já vinham sendo utilizados para grandes plantações de arroz, de excelente qualidade, que passou a ser intensamente comercializado em Iguape e de lá exportado para a Europa. De 1820 a 1900 a cidade conheceu um período de grande prosperidade e viveu seu apogeu económico. Cinco beneficiadoras de arroz trabalhavam continuamente, abastecendo uma média de dez navios grandes por semana; bancos garantiam o andamento dos negócios; seis jornais circulavam na cidade, cuja população estava acostumada a frequentar espetáculos vindos diretamente da Europa em paquetes luxuosos. A França mantinha um consulado permanente e várias escolas, entre as quais uma agrícola, se orgulhavam do seu nível de ensino. Iguape era tão importante quanto o Rio de Janeiro ou Salvador e não houve dificuldades na obtenção de recursos para a construção de uma das maiores e mais polêmicas obras hidráulicas da costa brasileira: o Valo Grande.

Além do arroz, outros produtos provenientes de todo o Vale do Ribeira eram transportados por embarcações até um porto fluvial às margens do Rio Ribeira, nas proximidades da cidade e de lá, por via terrestre, até o porto marítimo onde eram embarcados em grandes navios.

Com o intuito de facilitar e baratear o escoamento, foi solicitada a D. Pedro II licença para a abertura de um canal de 4 m de largura e 2 km de extensão, ligando o porto fluvial ao marítimo. A obra, concluída em 1855 não previu o fato de que as águas volumosas do rio, agora encontrando um caminho mais curto para o mar, passavam a entrar pelo canal, corroendo os barrancos, invadindo os terrenos ribeirinhos e ameaçando a região de inundações. Os sedimentos carreados foram se depositando no Mar Pequeno e causando o assoreamento do porto o que, já no início do século XX, impedia a navegação de grande calado. A região foi rapidamente entrando em decadência econômica. As pessoas abandonavam Iguape, e quem permanecia encontrava sérias dificuldades para se manter com a pesca de peixes e camarões, então muito reduzida nas águas costeiras invadidas por grande quantidade de água doce.

Pouco mais de 50 anos após a abertura, o canal já estava com 200 m de largura e, por volta de 1970, com 300 m. Parte das terras da cidade, invadidas pelas águas eram agora grandes alagadiços. Tinham sido construídos muros de contenção e barragens, pouco eficientes, pois tudo era carregado pelo rio. Em 1978 optou-se pela construção de uma barragem de fechamento o que acabou gerando problemas muito sérios: durante mais de 100 anos as águas do Ribeira, escoando com maior velocidade e facilidade pelo canal, tinham deixado de inundar grandes áreas do Vale onde a população passou a cultivar bananas, tomando-se aquela uma das maiores áreas produtoras do Brasil. Nas primeiras décadas deste século além da cultura de banana, o chá passou a ter grande importância na economia da região, como resultado do trabalho de imigrantes japoneses. Porém, nas estações chuvosas de 1981 e 1983, ocorreram enormes inundações resultando em prejuízos e doenças para grande parte dos moradores locais.

Após muitos estudos e discussões optou-se pela abertura parcial da barragem, de maneira que pudessem ser controladas as inundações acima do canal e ficasse garantida a reintrodução natural das espécies de peixes e crustáceos, pelo aumento gradativo da salinidade nas águas do Mar Pequeno.

As dificuldades de ocupação das terras do Vale do Ribeira foram parcialmente responsáveis pela manutenção de grandes áreas representativas dos vários ecossistemas locais, fazendo do Lagamar um local privilegiado para o desenvolvimento de atividades ecoturísticas. Aliado às paisagens naturais, os remanescentes da história e da cultura da região são atrativos que merecem ser conhecidos e apreciados.

Os habitantes das planícies que se estendem do sopé da serra até o mar são caboclos, também chamados caiçaras, descendentes da mistura de índios, mulatos, pretos e dos variados tipos de colonizadores que por ali viveram.

Toda a sua cultura está intimamente ligada às águas, sejam elas dos rios, estuários, manguezais ou do mar. Suas canoas, redes de pesca e armadilhas para apanhar animais aquáticos e terrestres são construídas artesanalmente e a técnica transmitida de pais a filhos.

Suas roças são variadas, mas a maior plantação é sempre a de mandioca, indispensável na mesa, sob a forma de farinha. Nas festas populares e religiosas, antigas tradições herdadas dos colonizadores, acrescidas de influência da cultura negra, são preservadas em datas comemoradas por toda a comunidade.

Muito da cultura original dos índios da região ainda se mantém nos hábitos dos caiçaras, nas suas lendas, na linguagem, no artesanato.

Nas áreas mais altas, na raiz das serras, ainda existem algumas aldeias indígenas já bastante descaracterizadas pelo relacionamento de seus membros com os caiçaras e com as comunidades urbanas. Periodicamente eles descem à beira mar para vender seus produtos aos turistas. Também não é rara a realização de casamentos entre índios e caiçaras. Mas o testemunho mais marcante da existência de muitas populações indígenas na região está na presença dos sambaquis encontrados ao longo de todo o Lagamar. São formações arqueológicas antiquíssimas encontradas ora na costa, ora às margens de lagoas e rios, constituídas por aglomerados de conchas, cascas de ostras, restos de alimentos e por uma variedade de pequenos objetos como lascas de machados, pontas de lanças, ossos, utilizados pelos homens primitivos. São uma prova de que o Brasil já era habitado muito antes do descobrimento, há mais de cinco mil anos.

Esses depósitos, chamados de ostreiros pelos colonizadores, foram sendo gradativamente dizimados, pois eram utilizados como cal para tomar mais brancas as vilas que iam sendo erguidas na costa. Mais tarde descobriu-se que o material podia ser moído e servir de base para a preparação de um adubo de excente qualidade ou para o enriquecimento da alimentação de animais, e a degradação continuou. A partir da década de 70, com a especulação imobiliária no litoral, muitos sambaquis foram reduzidos a cascalho. Hoje, restam poucas centenas dessas formações, embora sejam considerados lugares sagrados pelos caiçaras e protegidos como patrimônio histórico pela União. Os mais importantes em São Paulo, encontram-se no Lagamar.

(“Descubra o Lagamar”, por Nicia Wendel de Magalhães, Fundação SOS Mata Atlântica)

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3 Respostas para “Aspectos Históricos Ambientais

  1. Rosa Tamizari

    Parabéns! muito pertinente o texto. Apresenta aspectos históricos relevantes da nossa região litorânea.

  2. ridiculo nao me explico nada nao tendi nada

  3. júlio césar candela

    PARABÉNS AO VALE DO RIBEIRA SP BRASIL, ATLETA RECORDISTA DO BRASIL (JÚLIO CÉSAR CANDELA) MARATONISTA E FUNDISTA DE ILHA COMPRIDA SP BRASIL PARTICIPA DA PROVA (CORRIDA) EM HOMENAGEM AOS BOMBEIROS 10 KM,REALIZADA EM 04 DE JULHO DE 2010, NO IPIRANGA, E CONQUISTA MAIS UMA MEDALHA PARA A COMUNIDADE DE ILHA COMPRIDA SP BRASIL, SOMANDO (112) ALMENTANDO SEU RECORDE NACIONAL.

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