O histórico da construção do Valo Grande
A abertura
Já em 1779(!) houve da Câmara de Iguape interesse em realizar a abertura de um canal “(…) que comunicasse o Rio Ribeira com o Mar Pequeno, eliminando-se assim o inconveniente de se transportar em carroças o arroz desde o Porto do Ribeira até o Porto de Iguape, num total de aproximadamente três quilômetros.
Os trabalhos para a abertura do canal foram iniciados uma semana antes de 27 de agosto de 1827, dia em que foi paga a primeira turma de trabalhadores empregados nessa obra. Os salários pagos eram de 180 a 240 réis diários. Mas os trabalhos logo foram paralisados, por motivos os mais diversos.
“Em 7 de agosto de 1829, por ordem do governador da Província, a Câmara de Iguape reuniu-se em sessão extraordinária para tratar do prosseguimento da obra. Os recursos empregados na abertura do canal eram fornecidos exclusivamente pela população. É lícito acreditar que os atrasos na execução dessa obra tenham sido por falta de recursos e até mesmo divergências políticas.
“A 20 de julho de 1830, o governador da Província oficiou à Câmara solicitando “uma circunstanciada informação do estado de adiantamento ou atraso em que se achava o serviço de abertura do canal.” “O governo, posterior a 1829, mandou continuar a obra, remetendo a importância de um conto de réis, que figurou como empréstimo da Fazenda Nacional. Nessa ocasião, os engenheiros brigadeiro João da Costa Ferreira e tenente-coronel Eusébio Gomes Barreiros nivelaram o terreno e calcularam que as águas do Rio Ribeira, na embocadura do canal, ficavam seis metros acima do nível do Mar Pequeno.”
“Pouco consta em relação as obras no período de 1834 a 1837. Com a falta de dinheiro, travou-se uma verdadeira luta no sentido de se arrecadar fundos para a execução dos trabalhos. Em 14 de março de 1837, o Governo decretou a Resolução nº 19, estabelecendo imposto de 20 réis por alqueire de arroz pilado que fosse exportado para fora do município, cuja renda deveria ser destinada às obras do canal. O interesse financeiro de alguns capitalistas foi maior do que o bom senso. Em 1840, a própria Câmara de Iguape admitia que o canal poderia desbarrancar por ocasião das enchentes.” (1)
Em 1848, com o canal totalmente aberto, as canoas traziam as sacas de arroz entre o Porto do Ribeira e o Porto Grande (Mar Pequeno). Por essa época, muito antes do assoreamento atual, o canal do Mar Pequeno tinha profundidade para embarcações de médio porte. Em 1855 o canal era oficialmente inaugurado.
Com relação ao imposto sobre o arroz, criado para a construção do canal, ele iria ainda permanecer por quase um século e destinado a manutenção da próprio canal.
“Uma vez aberto o canal, ao invés de o Rio Ribeira percorrer 27.000 metros até atingir o oceano, passou a fazer esse percurso em apenas 3.850 metros. Assim, o rio tendo à sua disposição um canal de comprimento sete vezes menor do que o seu próprio leito, insinuou-se por ele, aumentando de volume dia a dia.
“Dessa maneira, como seria de se esperar, o canal alargou-se e aprofundou-se consideravelmente, a ponto de ter a capacidade de debitar 203 metros cúbicos por segundo, exauridos do Ribeira. Essa incrível massa d’água, desaguando no Mar Pequeno, equivalia a quase dois terços do volume que debitava o Ribeira, ou seja, 325 metros cúbicos. O que transformou o “pequeno valo”, de 4,40 metros de largura por 3,30 de profundidade (que no início do século passado era transposto por uma pequena ponte e navegado somente por canoas, em marés cheias) num majestoso braço d’água, com as características próprias de um rio.
“À medida em que aumentava o volume d’água do Ribeira escoado no Valo Grande, o canal tinha as suas margens desbarrancadas pela impetuosidade das águas, o que resultou no “engolimento” de diversas casas construídas nas proximidades do canal.” (1)
Em 1968 o DAEE realizou estudos que propunham o fechamento do valo. Somente dez anos depois, em 03/12/1978 a obra era inaugurada e, finalmente, as águas poderiam seguir o seu histórico curso até a sua foz natural. No projeto original dessa obra previam-se vertedouros para as cheias do rio; entretanto, jamais foram construídos.

Na época, passados 130 anos da construção do valo, o antigo caminho do Ribeira já não dispunha de leito que comportasse o volume d’água; instalou-se nova tragédia. As águas espraiavam-se pelas laterais do curso do rio, criando uma vázea onde havia agricultura. Ano após ano, as cheias provocaram no município catástrofes maiores; plantações foram continuamente dizimadas e solaparam a frágil base ecônomica da região. Por essa época, nos idos dos anos 80, a miséria instalava-se no muncípio.
(continua)
(1) Roberto Fortes, in “Iguape… Nossa História”